
Hoje ao fim da tarde o mar estava assim. O sol, mal conseguia romper o espesso manto de nuvens e era uma espécie de rasto antigo que se desenhava sobre as águas. A praia quase deserta acolhia a maré baixa e havia uma aragem fresca que nos lembrava que o Outono está à porta.
Ao sair do carro chegou-me de imediato o forte odor a maresia. Se soubessem como tenho saudades desse aroma! Agora mesmo quando o recordo, fecho os olhos para melhor o sentir, e há uma intensa emoção que logo me envolve. Como ía dizendo, foi a maresia que me recebeu hoje ao fim da tarde mas à medida que me aproximava do paredão dissolveu-se na brisa o aroma que tanto gosto. Meia dúzia de pessoas passeavam à beira mar. Havia um cão que corria e concerteza ladrava mas à distância a que me encontrava, nada ouvia para além do vento que soprava persistente.
Tenho saudades do mar. De me descalçar e sentir a areia moldar-se às minhas pegadas. De percorrer a beira-mar de pontão a pontão, uma e outra vez, a sentir a aragem que me arrasta alegremente. De chapinhar com vigor nas ondas mansinhas e sentir as gotas espalharem-se pelo corpo. De me deitar na areia e fechar os olhos, e em silêncio receber aquela dádiva única do canto das ondas. De me abandonar à carícia do sol e como de costume, deixar que o sorriso desenhe o prazer de Ser. Renascer uma vez mais.
Tenho saudades do mar, mas não desta forma como o vi hoje. É como se uma barreira existisse entre o Querer e o Poder. Como se algo dentro de mim me impedisse de atingir aquele prazer absoluto que se repete, Verão a Verão, e me regenera. É como se recusasse a mim própria o momento de me encontrar.
Quando me vim embora o Sol ainda não tinha atingido o horizonte mas as nuvens, cada vez mais densas, arrebatavam-no totalmente de mim. O mar estava cinzento e frio e o Bugio era uma imagem desfocada no horizonte.
Olhei para trás uma última vez antes de descer as escadas para o parque.
O mar era aquele. Eu, é que ainda não!
(Foto, minha