quarta-feira, abril 23, 2008

Flores


Abril! Trinta e quatro anos depois.

Ou Abril! Trinta e dois anos depois.

E ainda Abril sete anos depois.

Tudo se mistura neste Abril. Os cravos vermelhos daquele dia e aqueles que deixei de poder ver depois da tua partida. Eram tantos ... e o aroma avassalador.

Abril de novo e Sintra renascia em mais uma Primavera. Flores e aromas por todo o lado.

Agora aos sábados tornou-se um ritual! Na banca das flores páro e observo primeiro as várias tonalidades. São sempre as gerberas que atraem a minha atenção. Depois as rosas.

As primeiras, rosa, alaranjadas, vermelhas de sangue e no centro aquele pequeno e bem desenhado halo amarelo. As rosas espreitam do outro lado. Vermelhas, quase sempre. Procuro ultimamente as amarelas. Há quem diga que as flores têm um significado. Será que a côr também o tem? Amarelas, daquele amarelo desbotado e manso que derrama simplicidade e doçura. Pétalas redondas que se oferecem ao meu olhar.

Não, não há rosas amarelas. Só vermelhas. Rosadas. Matizadas.

O meu pai gostava de rosas. Tinha-as de várias tonalidades no jardim. Cruzava-as de forma a obter várias côres e plantava-as em todos os cantinhos de todos os canteiros, mas era de amores-perfeitos que gostava mais. Que contradição! Amores e ainda para mais - perfeitos. Impossível! Impossível confrontarem-se com as imponentes rosas bem erectas e orgulhosas nos seus caules vaidosos.

Coitados dos amores! Perfeitos, é claro! Rasteiros. Tímidos. Subservientes. Olham-nos de baixo e projectam em nós a esperança através das suas côres. Perfeitas! Nítidas. De amores à luz do dia. Olhos nos olhos. Transparentes de quereres. Amores! Perfeitos! Impossível!

Trago então gerberas. De um laranja matizado. Pétalas macias e frágeis. Caule dócil e ao centro, a promessa de um sol na minha jarra. Três. Ou cinco, porque as flores não se compram aos pares. Não, não sei porquê também, mas vai ao encontro daquilo que mais sinto. Não gosto de números pares. Sempre o três ou o cinco ou o sete. Um não, vá-se lá saber porquê! E para castigo ... enfim ...

Gerberas, pois então! As flores velhas eram vermelhas. As da outra semana. Curvam-se sobre si próprias como tu te curvaste um dia. Velhas. Gastas. Os caules mortos sem o saberem ainda. Tiro-as com cuidado e mudo a água. Agora transparente e limpa recebe as novas flores que se acomodam e enrolam às hastes verdes que as acompanham. Enroladas duram mais, disse-me a vendedora. Claro! Como eu também preciso de me enrolar às vezes ... não sei se duramos mais também ... mas conforta o coração saber que há um ombro que nos acolhe ou uma mão que aperta a nossa.

Todas gostamos de receber flores ... quero eu dizer, todas nós, mulheres. É uma oferta de pureza e simplicidade. Quando as filhotas nasceram recebi flores. Quando faço anos recebo às vezes flores. Outras vezes, recebo-as, singelas, de caule curto, ainda frescas do orvalho da manhã, arrancadas de um jardim. Já faz tanto tempo ... Umas vezes um ramo, outras, uma apenas. Sempre uma graça que recebo.

Agora compro-as todos os sábados. Quando percorro os últimos metros já as espreito ao longe enquanto a vendedora sorri ao ver-me. Ela já sabe o que quero. Já vai apontando o que sabe que eu gosto e tagarelando.

Abril. Cravos brancos. É o que vou comprar esta semana. Cravos brancos. Os únicos que têm aroma. Aqueles que me lembram a infância. Roupa branca estendida a secar ao sol. Perfume discreto. Pureza.

Ou rosas amarelas. A minha avó gostava de rosas amarelas. De Santa Teresinha, chamavam-se. Pequeninas e muito perfumadas. Era Generosa a minha avó e gostava de rosas pequeninas ...

É Primavera. Abril. Multiplicam-se as flores, as côres, os aromas.

Sete anos depois ... e eu aqui contigo. E tu aqui comigo. Olhamo-nos ao mesmo espelho. O meu cabelo está comprido como o teu. Os passos cruzam-se noutro plano num mesmo espaço. Os gatos olham o vazio com a atenção de quem sabe.

Quem sabe ... eles sabem!
(Foto, minha)

15 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Extasiado a ler-te.
Tão cedo? Nem por isso. As horas andam baralhadas. Tudo anda baralhado.
Quem sabe....tu sabes!

6:37 da manhã  
Blogger José said...

Perfeito, transparente, impossível.
A liberdade amarrada aqui!
Abril, sempre Abril, pela revolução, pelo nascimento, pela morte. Sempre Abril com flores e mãos apertadas... também como a alma!

3:17 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

É isso, a revolução. A revolução que foi dos cravos, que foi do povo, que foi sonho de tanta gente...
Aos que morreram entretanto, continuamos a amar, à revolução moribunda já não há amor que resista.
O sonho virou pesadelo!
Mas, nada pode destruir o facto de os nossos filhos já não serem obrigados a lutar numa guerra colonial que só serviu para matar, estropiar ou deixar marcas psicológicas para o resto da vida.

O Ary dizia: "Agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu..."

Morreu antes de voltarem os vampiros, aqueles que "são os senhores do Universo todo, senhores à força, mandadores sem lei..."
Voltaram, as portas vão-se fechando e eles (os vampiros, Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues, etc., etc.) mandam à força (e que força).

Mas amanhã faz 34 anos que os capitães e o povo português fizeram uma revolução, linda, única. Para mim a flor mais representativa do espírito puro de Abril é a papoila.

A papoila, frágil, vermelha, resistente como os que resistiram antes de Abril.

Dulce adorei o teu texto mas estou em brasa e tive de desabafar.

Bjs.

Escrevi

8:41 da tarde  
Blogger FERNANDA & POEMAS said...

Olá querida Dulce, lindo texto... Belíssimo mesmo!
Bom feriado, beijinhos de carinho,
Fernandinha

8:45 da tarde  
Blogger david mcmahon said...

Great detail on that shot. Well done

10:45 da tarde  
Blogger luis manuel said...

Abril de memória... de flores e aromas.

Aqueles que coloriram uma revolução à trinta e quatro anos atrás.

E os perfumes e cores que fizeram VIDAS. Em Abril também, depois... as partidas - físicas e a presença aí contigo (será que eles sabem...?).
Não haverá amores - perfeitos ? Ou os que se aproximam têm que ser subservientes, de baixo para cima ? Como se a projecção da esperança através das cores (como tão bem retratas) - olhos nos olhos (como é importante) - transparentes (perfeitos)...

É numa Primavera de flores, enroladas até para durar(mos) mais...? que sentirás uma mão estendida e acompanhada de um sorriso alegre pela vida que ainda falta viver.

Um grande abraço.
Um beijo, amiga

12:36 da tarde  
Blogger mfc said...

O importante é o advérbio.... sempre!

Um beijo.

7:07 da tarde  
Blogger Teté said...

As recordações que as flores nos trazem... A minha avó também tinha rosas de Santa Teresinha no seu jardim... Eram assim de um branco rosado e muito perfumadas...

Também adoro amores perfeitos, pelas cores luxuriantes em corolas tão pequenas. Mas nos canteiros... que já deixei de acreditar em contos de fadas há muitos anos...

Jinhos e um bom fim de semana (de Abril) para ti!

12:25 da manhã  
Blogger wind said...

Bela prosa cheia de emoções e sentimentos.
Beijos

11:22 da manhã  
Blogger Dad said...

Que lindo Dulce!

Pouco ando pelos Blogs a comentar mas estas flores e o urdir das palavras encantaram-me.
Que de flores destas precisamos todos os dias...

Grande beijinho,

11:27 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
e continua,
em constante
mutação, amiga,
,
conchinhas de abril
,
*

1:48 da tarde  
Blogger Alecrim said...

As flores falam de nós. Eu gosto sobretudo de malmequeres, que cheiram a verde e a campo, e a branco. E de alecrim, claro, que não é apenas flor...

6:44 da tarde  
Blogger Perdido said...

Eu vou nas de Santa Teresinha. As minhas são um dégradé do rosa para o branco. Nunca lhes sei a cor, depende do ângulo de visão...

1:24 da manhã  
Blogger Isabel said...

Dulce, que palavras lindas e tocantes.
Sabes, hoje, ao ler-te fiquei extasiada!Tantas coincidências. Só o tempo não condiz; apesar de que para mim 20 meses têm sido uma eternidade. Há 20 meses que, todos os domingos, ao aproximar-me já vem a D. Lina com 2 ou mais ramos de rosas vermelhas para que eu possa escolher as que mais me tocam; esta semana achei que o aveludado das gerberas vermelhas, enroladinhas por aquele delicado arame verde
também iriam preencher bem um local que tanto mimo. Então lá ficaram 2 vezes 7; também eu fiel ao número ímpar.
É assim , Amiga, algo nos liga para além desta estrada que cruzamos de vez em quando.

Beijinho

8:55 da tarde  
Blogger wind said...

Tenho uma coisa para ti no webclub:)
Beijos

9:32 da tarde  

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