terça-feira, março 11, 2008

Cidade-berço

Esta chuva miúda que persistentemente cai desde há dois dias entristece os dias e a cidade. Cidade antiga esta em que me encontro hoje - diz-se ela o berço da nação. Cidade antiga que se mostra em cada esquina nos velhos monumentos e que se espelha na pedra cinzenta e tosca que envolve os antigos edifícios.
Saio para jantar e a noite acolhe-me, fria e húmida. Nas paredes derramam a luz amarelada alguns velhos lampiões e a pedra da calçada brilha mais na sua esteira. É cedo ainda, mas estas ruas que percorro estão vazias. Ruas estreitas da cidade velha, que é fácil imaginar antigamente percorridas a trote pelos cascos dos cavalos. Das janelas hoje silenciosas e garridas de belas flores, ouvir-se-íam elevadas as vozes de quem regressa a casa depois de um dia de labuta.
Abre-se um largo à minha esquerda e espreitando as casas baixas que o debruam, vejo-as envolvidas por uma bela folhagem amarelada pelo inverno que tarda em acabar. Continuo em passo apressado à procura de um local para jantar e mais uma vez a rua se abre numa outra praça - esta bem maior mas igualmente deserta. Ao percorrer o passeio há uma luz acolhedora que me chama. Santiago, chama-se o espaço. Lá dentro há gente e aquele conforto que consola quem está só. Entro. O tecto baixo de vigas de madeira contrasta agradavelmente com as paredes de grandes blocos de pedra cinzenta e rude. Em cada mesa uma vela vermelha acesa transforma um espaço que podia ser frio numa confortável sala de jantar. Conduzem-me a uma mesa e deixam-me só para que escolha o meu repasto. Depois de o fazer, entretenho-me a espreitar os meus companheiros de refeição. Estrangeiros todos eles. Na mesa do canto, um casal. Não consigo distinguir o que dizem. Na outra mesa mais perto um outro casal de meia idade - estes ingleses - brindam sorrindo com os seus copos de vinho. Ao meu lado dois homens jantam também e é deles que ouço a conversa que me vai entreter. Um mais velho e de cabelos brancos - americano, segundo entendi - é professor e parece-me estar de visita. O seu interlocutor é português - também professor - e fala-lhe do nosso país. Refere o Alentejo quando a conversa incide sobre os vinhos. Fala sobre a nossa comida e sobre os nossos hábitos. Menciona a nossa tão discutida Lei do Tabaco e estabelecem algumas comparações. O seu companheiro escuta mais do que fala, mas quando o faz é com alguma frieza, que apenas se desvanece quando sorri.
No ar, bem baixinho, ecoa o fado na voz quente de Amália e os meus companheiros falam dela e da nossa canção nacional.
O jantar entretanto já lá vai e faz-se hora de partir. Saída a porta, aconchego a mim a gola do casaco, e com as mãos bem enfiadas nos bolsos percorro apressadamente o caminho de volta.

15 Comments:

Blogger viajante said...

Um bom jantar, uma cidade linda e um encanto de texto.
(Sabes que a mim também me faltam as palavras?)

8:00 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
crónicas da nossa terra,
,
conchinhas
,
*

9:59 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

ummm, ão, ão, ão.

10:33 da tarde  
Blogger Ana Ramon said...

Que bom... afinal já voltaste para nos dar o prazer da tua leitura.
Beijinhos

11:33 da tarde  
Blogger Teté said...

Estas tuas prosas poéticas, de um simples jantar algures no país, são deliciosas...

Jinhos e bom regresso a casa!

10:15 da manhã  
Blogger José said...

Doce e forte, como o granito, a tua escrita. Também já tinha saudades dela.
Tinha de ler o teu livro ou olhar os teus olhos, o que eles vêem, para te sentir por perto, depois destas férias.
Beijinho doce

3:40 da tarde  
Blogger Besnico di Roma said...

Li.
Li e gostei.
Penso mesmo que li, para além das palavras escritas.
Por isso, fiquei sem palavras para responder. Como diz um poeta já falecido e menos conhecido ainda, não vou comentar “porque coração que não cala, a boca pode mentir”
Beijitos

3:43 da tarde  
Blogger Poesia Portuguesa said...

A melancolia, de um jantar em dia de chuva...
Gosto de ler estes teus textos cheio-os de sentimentos...

Um abraço e continuação de boa semana

7:54 da tarde  
Blogger perplexo said...

Lia-te e imaginava que podias pedir que deixassem posto o lugar à tua frente, como quem espera por alguém com quem se marcou encontro mas que «roeu a corda». Podias saborear algum olhar ou comentário em surdina à tua volta.
Enfim foi um script passageiro, de gosto duvidoso.
Bjs

9:14 da tarde  
Blogger wind said...

Excelente descrição, visualizamos tudo e sentimos:)
Beijos

4:11 da tarde  
Blogger M. said...

Tinha sentido a falta destas tuas vivências.

5:58 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Adorei conhecer, através dos teus olhos a cidade de Guimarães, apesar de também já a ter visitado.
Só que podias ter acrescentado que este post é como que uma continuação do anterior.
É porque estás a fazer as tuas pesquisas da árvore genealógica de alguém, é porque andas à procura do tal nono avô dessa pessoa, que te moves pelo país, de arquivo em arquivo para encontrar a certidão de nascimento, ou casamento, ou óbito, desse familiar que viveu há 300 anos como referiste no "O gosto do ofício" e que te vai dar mais uma folha a juntar ao ramo dessa família.
Fico à espera que nos fales agora de Lamêgo, e dá só uma dica sobre quem encontraste desta vez...

Bjs.

Escrevi

8:10 da manhã  
Blogger Perdido said...

Não li, honestamente! Respinguei aqui e ali e confirmei o estilo inconfundível e belo. Estou de partida, novamente, mas voltarei - com alma, intencionalmente.

Entretanto, dou a saber que estou vivo e de regresso à comunidade.

11:23 da tarde  
Blogger A. Jorge said...

Nem a chuva fez com que eu não adorasse o passeio por essas históricas ruas para o qual nos convidaste. Foi um passeio e tanto.
Gostei muito de jantar contigo. Para a próxima convido eu.

Um beijo

Jorge

http://vagabundices.wordpress.com/

12:43 da manhã  
Blogger Perdido said...

Li agora, com calma e devoção. A cidade é, presumo, Guimarães. Só ela porta consigo a simbologia do berço. Não a conheço. Isto é: não a conheço presencialmente. Mas agora fiquei a conhecê-la e a desejar ir lá.

Um beijo

12:54 da manhã  

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