domingo, janeiro 06, 2008

Janeiras


Há um ano o frio era intenso naquele pátio. Amontoavam-se as pesssoas à volta da grande fogueira em busca do conforto que o calor proporcionava. As golas dos casacos puxadas para cima aconchegavam as orelhas que o vento gelado teimava em arrefecer. Há um ano havia mais gente no pátio do velho solar. Há um ano fazia mais frio.

Quando hoje chegámos, os portões abriam-se para uma antiga tradição. As varandas iluminadas recortavam docemente cada aresta, e nos antigos azulejos as cenas ganhavam vida nesta noite de festa. Na escadaria juntava-se já a assistência, e da sua base elevavam-se as vozes, umas vezes mais alto, outras abafadas pelo ruído de outras vozes que, mais em surdina também se faziam ouvir.

A fogueira lá estava, à esquerda do velho pátio. Sobre um monte de areia dispunham-se os grandes e toscos troncos a que alguém pegara fogo e o calor irradiava generosamente os que a ela se chegavam. As chamas alaranjadas crepitavam furiosamente e no ar o fumo colava-se às roupas como uma antiga lembrança. Hoje não estava frio. Todo o dia caira uma morrinha que entristecera ainda mais o dia já de si cinzento e escuro. As nuvens espessas nunca permitiram que o sol rompesse e a tarde sucedeu naturalmente a uma manhã sem história. Era à noite que a vida ganharia côr.

Havia agitação no pátio do velho solar. Os instrumentos faziam-se ouvir salpicando o espaço de alegria. Eram muitos os grupos que ali acorriam nesta noite de Janeiro. Cada um com as suas músicas. As Janeiras. Uma dádiva como canta a tradição. No fim os abraços, e os votos de um bom ano e depois, subida a escadaria de pedra, era no interior que nos aguardava uma mesa posta com as iguarias próprias desta época.

Espreitei à janela. Nos vidros reflectia-se o alaranjado da fogueira e pelas frestas escoava-se baixinho o reconfortante som de uma antiga tradição.
(Foto minha)

15 Comments:

Blogger Maria said...

Saudades de te ler, tantas..........
Bom Ano de 2008.
Beijo

1:57 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Adoro etas velhas tradições portuguesas.
As origens são remotas, mas mesmo esqucendo ou não sabendo porque se cantam as Janeiras elas mantêm-se ano após ano, com o mesmo empenho e alegria. É bonito!
Mas atenção "eles andam aí" e tal como a velha colher de pau ou o pacote das castanhas assadas feito em papel de jornal, um dia destes também vão ter, regulamentações, probições,leis e coimas e se calhar é mais uma que acaba.
È triste mas lembrei-me que talvez explcasse melhor com a referência a um poema ou uma canção como tantas vezes faço. Sabes qual me vem à ideia?

"Os vampiros

No céu cinzento sobre o astro mudo
Batendo as asas p'la noite calada
veem em bandos com pés de veludo
chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
e lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo,
eles comem tudo e não deixam nada.

A toda a parte chegam os vampiros
poisam nos prédios, poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos mas nada os prende às vidas acabadas..."

Começa a fazer tanto sentido outra vez, esta canção do Zeca que até arrepia.

Bjs. gostei muito também da foto.
A fogueira é outra que dentro em pouco vai ser proibida. Normas da União Europeia, sabes, têm de ser cumpridas...
Como se não bastassem os nossos vampiros ainda levamos com os dos outros...

Escravi

10:26 da manhã  
Blogger Oris said...

Já sentia saudades dos teus escritos...

Bem, depois de te ler....ficou uma nostalgia....
Deve ser do tempo. Ele tem a culpa de tudo...

Beijitos, Dulce

4:12 da tarde  
Anonymous jsd Almada said...

Almada, terra das promessas...

visite www.jsdalmada.blogs.sapo.pt e conheça a vergonha que ocorre presentemente nos bairros camarários do Feijó e Laranjeiro.

Viver Almada, vivê-la Juntos.

7:17 da tarde  
Blogger A. Jorge said...

Belo texto. Palavras tuas que já tardavam e hoje serviram para acalentar a neura típica de um estúpido domingo de Janeiro.

Um beijo

Jorge

http://vagabundices.wordpress.com/

8:26 da tarde  
Blogger Su said...

feliz 2008...todos os dias...sempre


jocas maradas

8:29 da tarde  
Blogger Kalinka said...

Os únicos bens duráveis, imutáveis e sem preço, são o afecto e a solidariedade que se sentem pelas pessoas queridas...

Dulce - deve ser reconfortante vivenciar esses hábitos antigos; onde vivo já não se usa cantar as Janeiras.

Um abraço cheio de Esperança.

BOM ANO.

9:05 da manhã  
Blogger Vb said...

Também assisti..

Por aqui há as Janeiras e as Charolas...

Beijinho

6:50 da tarde  
Blogger MADRUGADA... said...

Belo texto!

8:59 da manhã  
Blogger Besnico di Roma said...

Bolas Dulce!... estou a ficar velhinho e contos destes já me comovem… tantas, tantas recordações…
Depois, a juntar ao teu maravilhoso conto, o comentário de um ANÓNIMO, que me traz de volta “Zeca Afonso” e os VAMPIROS. Recordo a primeira vez que o escutei ao vivo, (1966) saudades se é que faz sentido. Saudades de São Pedro de Moel, de uma casa completamente fechada, portadas de madeira corridas, onde à luz mortiça de algumas velas, gente em completo segredo escutava “O Zéca”. Saudades da vida, saudades D'Ela e saudades de mim.
… e contudo não sou comunista, sou apenas um monárquico.
Um Beijo

3:55 da tarde  
Blogger bettips said...

Lentamente, impregnei-me do lugar, do fogo e dos cantares.
Como uma toada de esperança para tanto frio de alma.
Abçs

6:12 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
colheita refinada
,
xi
*

7:47 da tarde  
Blogger augustoM said...

ESpreitei à janela e o novo vi.
Bom Ano. Um beijo. Augusto

1:31 da tarde  
Blogger wind said...

Boa descrição como já é costume:)
Beijos

10:54 da tarde  
Blogger des-encantos said...

...com que então a nenina foi aos Zagalos?!!!
penso que é ....
Pois Este ano falhei, por razões óbvias: na miha rua faz-se o tete a tete , casa a casa...coisa ÙNICA

3:32 da tarde  

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