sexta-feira, novembro 16, 2007

Solidão

Entraste no escritório - o teu espaço, o teu refúgio. Algo que sentes como abrigo. Castigo também! Onde podes ser tu. Agir livremente, sem cuidados, e no entanto ... ao mesmo tempo ... perguntas-te porque terás que sair de casa - da tua casa - para poderes viver como tal?
Fechada a porta, o frio ficou lá fora, mas assalta-te agora o ar gélido que a solidão transporta.

Finalmente os últimos acordes. Continuamos no próximo ensaio, diz o maestro enquanto arruma as pautas no volumoso "dossier". Há um burburinho repentino na sala. Todos se levantam e começam a arrumar as cadeiras. Vestem-se os casacos enquanto se procura o colega que o levará a casa. A sala fica de súbito vazia de gentes e de sons enquanto é agora à porta da rua que o grupo troca as últimas palavras.

Acendes a luz da secretária e os montes de papéis, antes formas estranhas, definem-se à luz crua do candeeiro. Esfregas as mãos uma na outra tentando contornar o desconforto e olhas à volta. Devias trabalhar um pouco, mas o sofá baixo, apesar de desconfortável, exerce uma maior atracção sobre ti. Com a televisão ligada inunda-se o espaço de sons e luz. Está mesmo frio!

Aconchegas o lenço colorido ao pescoço tentando obter algum conforto. Há que esperar que o carro chegue e entretanto vai-se falando do Outono que tardou em chegar, e de como vai saber bem chegar a casa. Naquela rua apenas nós - quatro ou cinco. Os outros afastaram-se rapidamente à medida que saíam e acenavam as últimas despedidas, afundadas as vozes no meio da escuridão. Os faróis que dobram a esquina são o transporte que esperávamos e depois de todos acomodados, espalha-se o calor numa onda reconfortante. Faltava pouco agora!

Ligaste o aquecedor e ficaste à espera que o calor te inundasse. Ahhhhhhh agora sim !!! o sofá !!!
Na televisão esperavas a série que começara esta semana ainda, mas os malditos anúncios nunca mais acabavam. Lá fora a noite, pegajosa, colava-se às vidraças. A Lua ficara lá longe, cada vez mais minguada, cada vez menos luminosa, rarefazendo-se mais e mais a cada noite que passa. Pegaste no telemóvel para espreitar as horas. Faltava pouco já!

Em poucos minutos se percorreu a distância que te separava de casa e agora a poucos passos da porta pensavas no conforto do teu escritório à luz doce do candeeiro da secretária. O gato esperava-te como de costume frente à porta. Adivinharia ou pressentiria ele a tua chegada? O escritório estava quente e confortável. O computador ligado emitia aquele som persistente que por vezes tanto te irritava. Ao abanar o rato, o ecrã iluminou-se e uma janela se abriu. Ligas a televisão e logo distingues as falas em inglês. A série começara já! Deitas um olhar rápido ao relógio e ligas a bateria do telemóvel. Já dera sinal há pouco. Aguardas.

Espreguiças-te mais uma vez e um arrepio percorre-te. Lembras-te de ver as horas de novo. Já é tempo! Marcas os números e aguardas a voz do outro lado. Oláááá! é a primeira palavra, e nela te enroscas consolado como se de um abraço se tratasse.

O toque do telemóvel provoca-te um sobressalto. Sorris já enquanto aguardas a voz do outro lado. Chega-te também o som da televisão, que reconheces estranhamente adiantada. Dizes as primeiras palavras. Falas das tuas últimas horas. Ouves as palavras que te chegam do outro lado do fio. A série recomeça e dás-te conta que os silêncios se prolongam. Os teus. Também do outro lado do fio as palavras se diluem, perdida a atenção nas imagens e nos gestos.

Então não dizes nada?

E tu estás tão calado também!! dizes sorrindo enquanto pensas na estranheza da situação. Que tolos!! Tão longe e no entanto ... tão perto!

24 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Ainda ontem, ao falar com uma amiga minha, comentava que com a sua sensibilidade e competência, com a sua fluência na escrita, parecia impossível que não tentasse escrever um livro.
É engraçado, agora ao ler-te lembrei-me dela.
Com um texto destes só dela me podia lembrar...
Mas, sabes, ela é tão, tão, tão...
que podia ir para badalo de sino!
Dá-me uma raiva, ver tanto potêncial ficar "perdido" por uns blogs da Net, que um qualquer virus um dia pode apagar.
E aí, que leriamos nós?
Ela é egoísta e preguiçosa, malvada, tonta e demasiado humilde no que se refere à sua escrita.
Ainda bem que tu não és assim...

O texto está tão lindo que eu só não consegui ver a série que passava na televisão, de resto acompanhei os teus dois personagens, sempre em busca da felicidade merecida como se os estivesse a ver, um e outro!
Enfim, mais uma bonita crónica para me animar a manhã.!

Bjs

Escrevi

9:45 da manhã  
Blogger viajante said...

ESCREVI disse tudo !
A leitura aqui é um Prazer.

11:52 da manhã  
Blogger Paula Raposo said...

Dos textos mais belos que aqui li!! Beijos.

7:28 da tarde  
Blogger mfc said...

Um monólogo/diálogo, cheio de "flash backs" e a omnipresença do gato consolador!

Mereces um grande beijo.

7:02 da tarde  
Blogger AnaG. said...

Ontem (já hoje....), passei por aqui e deixei um comentário que não sei porque não apareceu...

Já não me lembro as palavras exactas...mas devo ter dito que gostei muito...
:)

Beijitos

9:43 da tarde  
Blogger luis manuel said...

Um espaço, refúgio de solidão... lá fora o frio e os acordes, últimos, até ao próximo ensaio.
O conforto, de um sofá desconfortável, que partilha a espera... a série que começa, a distância que fica curta... o telefone...as palavras e novamente o silêncio.

Um beijo, amiga

12:17 da manhã  
Blogger butterfly said...

Gosto de contos. Gostei desta solidão partilhada.

3:28 da manhã  
Blogger rui said...

Olá Dulce

Tens aqui tanta coisa linda!
E, escreves tão bem! Verdade.

Estive no cantinho das fotos e também gostei.

Que tenhas uma linda semana
Abraço

12:17 da tarde  
Blogger José said...

Fotografias com muita matiz,
um quotidiano de quem à distância procura calor humano,
numa sociedade cheia de vultos.
Parabéns por esta bela crónica, vou continuar à espera de mais e
DO LIVRO
beijos

6:44 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
maravilhado, estou.
,
obrigado, dulce
*
ji
*

9:50 da tarde  
Blogger Bichodeconta said...

Este comentário foi removido pelo autor.

12:15 da tarde  
Blogger Bichodeconta said...

Soberba prosa em que por vezes se vislumbram laivos de poesia.. Magnifico.. É tão bom ler-te, sempre.. Uma fluencia, uma sonoridade nas palavras que nos leva atrás de cada personagem..um beijinho . Claro que volto aqui.. Sempre

12:17 da tarde  
Blogger bettips said...

Quer de um lado quer do outro. Falta o calor de presença humana, o trocar riso e lágrima. Aqui, trocamos palavras por sentimentos. (Gosto das tuas "arqueologias").Bjs

1:39 da tarde  
Blogger A. Jorge said...

E carta que fosse, querida Dulce! Quanto ao La Feria, como pessoa, se calhar também "não morro de amores por ele", no entanto, como profissional, de momento não encontro melhor. Gostei muito do trabalho que ele realizou com o "Jesus Cristo Superstar" que, embora não gostes dele (do La Feria)recomendo a 100% e já está aí em Lisboa, assim como a "Musica no Coração" que vi também aí e adorei.
É certo que tanto um como outro foram filmes que me marcaram, cada um na sua época, a minha infancia e juventude. Eu aprendi a falar inglês com o Jesus Cristo Superstar. Como temos praticamente a mesma idade, deves ter sentido provavelmente o mesmo que eu, embora, eu como músico talvez os tenha olhado de uma maneira muito especial.
É que a música para mim é uma das minhas prioridades e os temas dos ditos filmes, como sabes, são fortes. Assim, sinto-me na "obrigação" de "defender" a estadia do La Feria no Rivoli.
Haja alguém que consiga fazer-lhe frente na grandiosidade dos seus espectáculos e eu aplaudi-lo-ei da mesma forma.
Adoro Jorge Palma e já falei nele num dos meus primeiros posts com o título "Dos melhores em portugês", no entanto, como bom português que sou, deixo tudo para a última hora e... só hoje ia comprar os bilhetes. Já deves saber o que aconteceu: "népia"! Quem me mandou a mim dormir na forma? É muito bem feito! Se ao menos eu vivesse numa grande cidade e essa cidade tivesse direito a dois concertos como uma que eu cá sei...
Pois! Ficará para a proxima!:(

Relativamente ao teu post, conforme já nos habituaste a todos, é uma história contada de uma maneira sublime sobre algo que no fundo, de uma maneira ou doutra, já todos por lá passámos.

E assim termino a minha carta

Um beijo

Jorge

2:32 da manhã  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
passei, aqui
*
xi
*

4:07 da tarde  
Blogger TINTA PERMANENTE said...

Apreços e preços da modernidade. Embrulhados em deixa-andar ou em qualquer encolher de ombros pendurado...

abraço.

5:38 da tarde  
Blogger augustoM said...

Desencontros.
Um beijo. Augusto

1:49 da tarde  
Blogger Kalinka said...

OLÁ DULCE

Volto a visitá-la
tenho-o feito em silêncio
porque o negro me enche o peito,
Nos meus olhos as lágrimas apago...
Anseio por um pouco de respeito
Quem me conhece...
já me viu sorridente,
com uma ligeireza nas palavras
e no olhar
É isso: Asas abertas!
Voar, preciso de voar
para onde o carinho e a Paz
me acompanhem
Preciso de Amigos/as
que murmurem palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!
É disso que preciso.

Quando a raiva e a dor me apertam no peito, por vezes, desabafo.
Sou Feliz por sentir que ALGUÉM se preocupa comigo.

Beijos.

PARABÉNS PELA EXCELENTE ESCRITA.

1:02 da manhã  
Blogger lena said...

Dulce escreves e deixas um sabor de emoção que toca

maravilhada fico ao ler-te e a transparência é tão grande que idealizo cada passagem, cada pormenor

são sublimes os teus textos


um abraço meu, com ternura

beijinhos

lena

4:12 da tarde  
Blogger DE-PROPOSITO said...

SOLIDÃO, algo tão necessário como a tempestade. Só assim compreendemos o valor da alegria e da bonança.
FELICIDADES

6:31 da tarde  
Blogger AnaG. said...

Passei para ler outro post.
Afinal não encontrei nada de novo....
Fico à espera.
:)

Boa semana.
Beijitos

9:31 da tarde  
Blogger Gervásio Leonel said...

É indescritivelmente notável a sua escrita, minha senhora.

O meu amigo Perdido já me tinha advertido para esse facto. Chegou a ler-me alguns trechos, que interpretou com emoção, e que criticou com a sua habitual acutilância, considerando-os textos geniais.

Lamento que não esteja presente pois, creia-me, iria exclamar com um ar, meio para o furioso, meio para o divertido: "vês, Gervásio, coisas destas não põem eles nas selectas literárias dos nossos pobres aprendizes de português do ensino básico ao secundário!".

Encarregou-me, antes de partir para parte incerta, de lhe endereçar os mais respeitosos cumprimentos.

Seu
Gervásio Leonel

12:24 da manhã  
Blogger Heloisa B.P said...

GOSTEI!_MUITO_!!!!!!
UM ABRACO.

Heloisa B.P.
************

8:59 da tarde  
Blogger Vanadis said...

Mais um lindo texto.....queria mesmo te-lo na minha mesa de cabeceira. Mas não tenho ficha para a net no quarto... e o computador não ficava lá muito bem... :-)

2:55 da manhã  

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