terça-feira, maio 27, 2008

despedida

tinha um riso contagiante que quando começava parecia não acabar nunca, e chorava. chorava de tanto rir. ele e ela que o acompanhava e quase se engasgava também.
mas isso foi já há muitos anos que aconteceu. num tempo em que os domingos amanheciam sempre iguais quer chovesse ou fizesse sol.
havia carapaus assados no verão. assados por ele na varanda da cozinha, com calma e paciência. quando os provava dizia ele que estavam sempre secos e ela ria-se e resmungava baixinho.
havia cozido no inverno que ela começava a preparar bem cedo, coisa que eu nunca percebi muito bem. a panela era enorme e cheirava sempre tão bem.
era aos domingos e o almoço era sempre em casa deles. carapaus assados no verão e cozido à portuguesa no inverno. ao jantar havia sopa de feijão, daquela que, brincava eu, não deixava cair a colher quando se colocava na tijela. aromática. espessa. com pequenos bocadinhos de pão que a tornavam quase sopa e conduto ao mesmo tempo. tudo isto aos domingos. verão e inverno. há muitos anos.
e depois havia o natal. quando ele trabalhava na noite da consoada, atrasava-se o jantar até quase às dez horas para dar tempo a que chegasse. chegava e ainda cheirava a sabonete. chegava e mudava de roupa para se juntar a nós à consoada. ficava para trás a farda azul e o chapéu de marinheiro. ficavam para trás as longas horas de trabalho. ficava para trás o cansaço. à mesa o bacalhau cozido. as batatas. as couves. o caldo verde. o apetite calava as conversas que se guardavam para depois.
há muito tempo que não há natal como estes. nesse tempo éramos sete à mesa. o lugar da primeira que partiu foi depois ocupado por mim que não quis deixá-lo vazio, e fomos seis mais algum tempo.
soprou depois um vento de mudança e os lugares à mesa ficaram vazios. tudo se alterou e ganhou novas formas. o meu cabelo embranqueceu. o deles rareava cada vez mais. já não havia domingos como aqueles. havia outros dias da semana num calendário marcado com precisão.
ela, de braços caídos no regaço, habita um tempo que não é o nosso. olha a vida que já passou há anos. repete palavras sem sentido. às vezes acorda e surpreende-nos. às vezes fazem sentido as palavras que não repete.
às vezes ainda se encontravam nos risos cúmplices de tantos anos de vida vivida.
agora nunca mais.
o lugar ao seu lado na cama ficou vazio. ele já não responde ao seu chamado insistente. calou-se a voz que tantos anos ouviu.
no último momento não esteve lá.
eu estive, e em silêncio, de olhos fechados, trouxe-o até mim.
parou ao meu lado - o boné branco à banda de marinheiro batido, sobrancelhas fartas e sorriso maroto - e depois partiu, em passos lentos, sem nunca olhar para trás.

33 Comments:

Blogger A. Jorge said...

Brilhante, como sempre!

Um beijo

Jorge

1:06 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

O lado belo de uma tristeza grande.
Fiquei a pensar!
Alguma vez escreverás sobre mim, o que dirias... mas não. Não queria que isso acontecesse. Queria partir junto contigo.

10:11 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Emocionei-me. Fiquei triste.
Triste pela vida, pela morte, por quem assiste e sofre.


Para todos um beijo de solidariedade.

Já tinha muitas saudades de ler os teus textos bonitos.

Bjs.

Escrevi

11:19 da manhã  
Blogger wind said...

Bela e emocionante prosa.
beijos

3:22 da tarde  
Blogger Cláudia said...

Minha querida Dulce...

tanta emoção, as palavras repletas de sensibilidade e de todos aqueles pormenores que acabam por ser as coisas mais importantes do mundo!

Dei por mim com o queixo a tremer e os olhos húmidos. Isso diz tudo, não?

Um beijinho mto grande para ti, uma senhora que eu admiro, mesmo sem conhecer.

9:36 da tarde  
Blogger Teté said...

Ah e o que dói a quem assiste? O pior não são os cabelos brancos, os reflexos que se perdem ou a alegria que vai murchando.

É mesmo quando as várias debilidades se vão acumulando, no corpo e na memória, ao ponto de se perder a lucidez. Do ponto de vista de quem assiste a essa decadência, porque para os próprios suponho que não será tão mau, ficarem sem se aperceber da perda de familiares ou amigos...

10:05 da tarde  
Blogger viajante said...

Não olha para trás.
Não precisa.
Continua ao vosso lado.
(não se trata de escrever muito bem. trata-se de escrever o Amor)

7:33 da manhã  
Blogger Luis Eme said...

a vida também é isso...

abraço Dulce

2:29 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
é a vida,
da vida,
,
conchinhas
,
*

6:59 da tarde  
Blogger EDUARDO said...

"às vezes ainda se encontravam nos risos cúmplices de tantos anos de VIDA VIVIDA"

sublime...
abraços do


PARADOXOS

6:44 da tarde  
Blogger Alecrim said...

... sem palavras.
Um beijo.

1:10 da manhã  
Blogger AphotoAday said...

Hello Dulce,

Wanted to thank you for visiting my blog today.

I had to run the text of your post through the on-line translator, and as you probably know, that doesn't always work out too well, but I did kind of understand what you were describing. Sounded delicious, and very interesting! Almost like poetry -- plus a few extra things the on-line translator threw in just for spice...

All the best to you.
Don.

2:52 da manhã  
Blogger Louis la Vache said...

"Louis" thanks you for visiting San Francisco Bay Daily Photo for "Sky Watch Friday"!

11:15 da tarde  
Blogger eu said...

a decadência é o que mais me entristece. a vida está também a mostrar-me isso, com o meu pai.

2:35 da manhã  
Blogger Su said...

triste mas bela esta partilha de sentires

jocas maradas....sempre

10:47 da manhã  
Anonymous Netinha said...

Obrigada por escreveres este texto e por me fazeres recordar tantos momentos felizes e recordações que ele deixou no meu coração.

12:51 da tarde  
Blogger mfc said...

Brilhante, lindo e tocante!
Toma um beijo.

6:18 da tarde  
Blogger YTMO said...

...que prazer ler-te, mesmo quando nos deixas tristes...

bjs

9:10 da tarde  
Blogger Besnico di Roma said...

Querida Dulce – agora para desanuviar, vai ao meu “blog” tenho lá uma coisinha para te fazer rir.
(o palhaço da fotografia sou eu)

8:50 da tarde  
Blogger Oris said...

Já devo ter lido este texto uma meia-dúzia de vezes...
Tenho-o lido ao som da tua música que é linda.
Depois, vou-me embora em silêncio.


Beijitos, Dulce.

9:00 da tarde  
Blogger Ana Ramon said...

Passei para te deixar um grande abraço.
E claro que gostei imenso de ler mais um texto sobre as tuas memórias.
Beijinhos

11:29 da tarde  
Blogger mena m. said...

Comovente e belíssimo testemunho de amor, escrito com a pena da saudade!

Um dia os teus netos gostarão de saber...

Um abraço, Dulce!

12:05 da tarde  
Blogger Mia said...

Neste Dia Mundial do Ambiente, reflictamos um pouco sobre ele. Salvemos esta Terra que tão bem nos tem tratado.

Bjos

5:58 da tarde  
Blogger Júlia Coutinho said...

Querida amiga,
Fiquei muito emocionada com este teu texto, tecido com palavras profundas e sentidas. Resgatando da memória pedaços de vida.
Fez-me pensar na decadência a que muitos de nós chegam e que tanto receio...
Beijo grande

4:34 da manhã  
Blogger mfc said...

Só um beijinho... mais um!

4:30 da tarde  
Blogger Perdido said...

Não é desta que te leio; o Henrique Sousa já desistiu da encomenda, mandou-me um e-mail há bocado, acho que a lulu desconseguiu.

Entretanto vou aparecendo por aqui para deixar saudades. Ando preguiçoso para ler textos sem iniciais de parágrafo maiusculadas. Por aqui vejo como me vou inadaptar à nova ortografia. Confesso: estou velho.

3:38 da tarde  
Blogger IHR said...

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10:04 da manhã  
Blogger João C. Santos said...

Lindo!!

"e em silêncio, de olhos fechados, trouxe-o até mim"

a voz de uma alma acontece todas as vezes que os olhos se permitem a fechar sem medo.

1:08 da tarde  
Blogger lena said...

tão belo e tão triste nos sentires

deixei o olhar preso na cumplicidade de um vazio ...


abraço-te com ternura

beijinhos Dulce


lena

9:05 da tarde  
Blogger des-encantos said...

Despedida...? Urge regressar

11:43 da tarde  
Blogger tulipa said...

OLÁ DULCE

Por culpa minha,
pela minha ausência,
Já tinha muitas saudades de ler os teus textos bonitos.
Fico sempre emocionada e deslumbrada com a tua escrita.

Bom fim de semana.
Abracinhos.

2:36 da manhã  
Blogger Ana Ramon said...

Olá Amiga! De férias ou zangada com o blog?
:)))))))))))
Esperamos novos textos escritos daquela maneira que só tu sabes.
Um beijinho grande

11:01 da manhã  
Blogger Cláudia said...

Dulce, maravilhoso o seu texto. Emocionante e real, triste, mas ao mesmo tempo tem até a felicidade escondida de uma vida vivida, até o fim...

Beijos

12:18 da tarde  

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