Outras paisagens

Este fim de semana viajei. Decidi que não queria estar três dias a aturar-me. Pensei então sair e inscrevi-me para um passeio a Trás-os-Montes - uma zona do país totalmente desconhecida para mim. Partimos cedo, eu e os meus trinta e um companheiros. 7,20 da manhã de sexta feira, dia 25 de abril. Dois casais apenas, os restantes todas mulheres sós. Incrivelmente, cada vez somos mais ...
A viagem decorreu em bom ritmo e chegados à Régua, iniciou-se a parte mais bonita do percurso, todo ele à beira Douro. A paisagem fez-nos sentir pequenos. Toda aquele verde e os socalcos a dominar o terreno. Subíamos lentamente, em estradas sinuosas que espreitavam perigosamente o rio. Cada vez mais alto, cada vez mais longe da cidade e do seu bulício.
Depois do almoço visitámos algumas aldeias e o seu património. A pedra escura dominava as construções e do conjunto geral ressaltavam, um pouco esquecidos ou até abandonados os antigos solares, que apesar de tudo nos continuam a atrair pelo seu traçado e brancura. Nas ruas de pedra solta, à porta das velhas casas, sentavam-se, aqui e ali, alguns dos seus ocupantes. Uma mulher de preto a fazer renda. Um homem de boné descaído sobre os olhos, acompanhado de seus cães. Outros dormitando ou talvez pensando na vida. Não vi crianças. O movimento era quase nulo. Apenas nós falávamos descuidadamente perturbando o silêncio da tarde.
A paisagem foi mudando à medida que subíamos a serra. A giesta cobria vastas áreas, adoçando com a sua côr esbranquiçada aquela sucessão infindável de montes sobre montes. Giesta negral disseram, e tufos de flores de quando em vez, que davam uma nota de côr a uma paisagem que tendia a desvanecer-se na lonjura.
Foi ao fim da tarde que chegámos ao cimo da serra - a Serra de Bornes. Ainda longe do local onde pernoitaríamos nada se via em redor. Pedras e montes e uma estrada que se contorcia e trepava até ao topo do mundo. Lá muito ao fundo, do outro lado da montanha, reconheci um pequeno sinal de vida. Seria ali, pensei. Vi depois que sim. Bem empoleirada no alto da serra estava o nosso poiso.
Chegámos, já o sol quase desaparecia por detrás dos montes. O ar era leve e as côres do ocaso esbatiam-se na neblina do horizonte.
Do janela do meu quarto deixei que o olhar se perdesse por entre os verdes e os vales até se encontrar em pequenos nichos de povoados que repousavam na paisagem. O céu era de um azul muito claro riscado aqui e ali por pinceladas de branco e o sol amarelecia docemente no horizonte, mas o que mais impressionava era o silêncio. Não aquele silêncio do bosque, ou mesmo o de todas as noites no meu quarto. Um silêncio denso que oprimia o coração e castrava as ideias e lá muito ao fundo, como que a lembrar-nos que afinal ali também havia vida, um chilrear leve, de passaritos também eles assustados com tamanha imensidão.
A noite chegou e tomou conta de mim. Ao deitar abri a pesada cortina para deixar entrar o luar, mas também ele desaparecera, devorado pelo breu. Foi uma noite sem sonhos, pesada e longa. Escura.
Já era madrugada, quando às voltas na cama abri os olhos e enfrentei uma luz prateada que me espreitava e iluminava o quarto. Agora sim, acompanhada adormeci até a manhã romper.
(Foto minha)