quarta-feira, novembro 15, 2006

As estranhezas humanas

Não quero mais o motivo
das coisas.
Nem mais cobiço
as verdades que se escondem,
avaras, no âmago límpido
das estranhezas humanas.

Foi-se-me a fome de nuvens,
foi no escuro, antes da aurora.

Trava-me o gosto da vida,
de tão pesada, esta absurda
precisão que tem meu ser
de ser sempre inteiramente,
sempre intensamente: em tudo.
Sobretudo no saber.
Contudo sequer alcanço
a escassa fímbria da sombra
do saber que em vão persigo.

Não quero mais os motivos.
As coisas que me sucedam
a seu gosto: em meu desgosto
hei-de fronteá-las.
O mundo
que avance conforme a lei
(se é que mistério tem lei)
que rege e doma as razões
com que engana, cauteloso,
a todos que lhe moramos.

As mágoas que me chegarem
não lhes irei mais às causas:
simplesmente as sofrerei
- como quem sofre, fazendo
de conta que está fingindo.
Assim vai ser. Não me quero
nem a própria explicação.

O que escondido restar,
que reste.
Já me cansei
de mergulhos - sempre vãos,
sofridos sempre - em funduras
onde peixes lisos, frios
e invisíveis, acalentam
com ferrões feitos de nada
o desencanto da vida.

Assim me sonho. Entrementes,
me transpareço e me aceito.

Thiago de Melo, "Canto do Amor Armado", Moraes Editores, Lisboa, 1974, pp. 154/5

5 Comments:

Anonymous poetaeusou said...

DULCE.
Descobre Adília Lopes,Já ? Melhor.
ARTE POÉTICA.
Escrever um poema.
É como apanhar um Peixe.
Com as mãos.
Nunca pesquei assim um peixe.
Mas posso falar assim.
Sei que nem tudo que vem ás mãos.
É peixe.
O peixe debate-se.
Tenta escapar-se
Escapa-se.
Eu persisto.
Luto corpo a corpo.
Com o peixe.
Ou morremos os dois.
Ou nos salvamos os dois.
Tenho de estar atenta.
Tenho medo de não chegar ao fim.
É uma questão de vida ou de morte.
Quando chego ao fim.
Descubro que precisei de apanhar o peixe.
Para me livrar do peixe.
Livro-me do peixe com o alivio.
Que não sei dizer...
in)Adilia Lopes. Caras Baratas.
poetaeusou(daadilia)

1:15 da manhã  
Blogger dulce said...

Poeta:
Vou procurar.

1:27 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Olá. Vim aqui parar através de um comentário, porque tb me chamo Dulce, e gosto de conhecer as homónimas. Além disso, gostei de conhecer os seus blogs...
Boa noite...

1:46 da manhã  
Blogger wind said...

Sinceramente desta vez não atino muito com este poema. Desculpa:)
Nada pode ser levado assim como se não fosse nada, ou então percebi mal.
beijos

2:16 da manhã  
Blogger Paula Raposo said...

Gostei...concordo. Sinto o mesmo. Belo poema! Beijos para ti, Dulce.

9:13 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home