sábado, maio 20, 2006

O prazer de arriscar

"... os riscos que a maioria de nós vive nos dias de hoje são outros e a nossa sobrevivência coloca-se em termos não tão radicais como o da luta constante entre a vida e a morte. Tem antes a ver com escolhas, decisões, opções, dedicação a tarefas, desejos e sonhos. Mais adaptados às nossas circunstâncias, alguns dos nossos desafios podem não ser espectaculares mas, se bem vividos, dão-nos sensações tão gratas como triunfo, euforia, auto-estima, prazer, alegria, satisfação e orgulho. (...) Arriscarmo-nos pode significar ter a coragem de renunciar, de nos enganarmos e humildemente voltarmos atrás nas nossas decisões, e de fazer escolhas que possam desagradar aos outros. São riscos construtivos e essenciais no nosso processo de maturidade.

Renunciar . Não significa apenas "deixar cair", desistir, fugir às responsabilidades, ser vencido pelo medo, baixar os braços. Em muitos casos renunciar prende-se justamente com a coragem, nomeadamente no sentido de abandonar uma situação estável e segura por outra mais escorregadia mas que sentimos ser uma resposta a um desejo profundo da nossa natureza. (...)

Errar. Para fazer um caminho de vida maduro e responsável, com experiências que nos enriqueçam e ensinem, é preciso ter a coragem de errar. Mas por medo do desconhecido, da solidão, marginalização e desaprovação, muitos de nós não nos permitimos correr o risco de errar, protegendo-nos de viver determinadas experiências, de "pisar o risco", de ousar transgredir o que está estabelecido, o que é considerado correcto, o que é aceite.
(...) Ousar experimentar ou explorar novas experiências de vida correndo o risco de errar faz-nos, muitas vezes, dar o devido valor ao que temos e ao que nos arriscamos a perder. Permitirmo-nos errar e assumir os nossos erros é ainda uma prova de humildade, uma das maiores e mais difíceis de aprender e praticar. Na realidade evitamos esta prova a todo o custo. Porque nos confronta com as nossas fragilidades e defeitos, com as nossas incompetências e incapacidades. (...)

Escolher. Ter a coragem de fazer as nossas escolhas quando elas não agradam às pessoas de quem gostamos e a quem estamos intimamente ligados pode ser a tarefa de uma vida e requerer força, determinação e espírito de independência. Na realidade muitos de nós acabamos por nos submeter à vontade dos outros, especialmente da família, de cuja aprovação dependemos afectivamente. Queremos, pertencer, agradar, ser amados a todo o custo. Por isso desistimos muitas vezes das escolhas mais significativas da nossa vida, por medo de censura e rejeição. (...) Porque, tenhamos ou não consciência, estamos presos em redes complicadas de lealdades e de afectos. A solução, dizem os psiquiatras e psicólogos, está em aprender a gostar genuinamente de nós próprios, o que não é um caminho tão imediato e óbvio como possa parecer. Implica correr o grande risco de confronto connosco e nem todos se prestam a ele. Mas se há desafios que valham a pena, este é um dos mais significativos da nossa vida, libertando-nos da dependência do amor possessivo e demasiado exigente dos outros.

Ana Vieira de Castro, in XIS, suplemento do Público de 20/05, pp.18/19 (excerto)



Começa hoje e prolonga-se até ao próximo sábado a 8ª Edição da Festa no Chiado, organizada pelo Centro Nacional de Cultura.
Na sua programação destacam-se diversas exposições, palestras, feiras de livros de Arte e Alfarrabistas, teatro, e música - muita música.
Aconselho a consulta do "programa das festas" em www.cnc.pt
Eu vou já começar hoje!!

8 Comments:

Blogger lena said...

muito longe de mim Dulce, o Chiado,claro
tu não, consigo sentir-te através das tuas partilhas e este texto é excelente, deixou-me a meditar e a reflectir!

tanto queria...


beijinhos doce menina

lena

3:35 da tarde  
Blogger wind said...

Estou completamente de acordo com Ana Vieira de Castro. Beijos

6:26 da tarde  
Blogger José said...

adoro o "programa das festas".
Bom fim de semana... Festivo!
Beijinhos

6:53 da tarde  
Blogger AS said...

Um belissimo artigo da Ana Vieira de Castro.
Quanto ao Chiado... não vou ter hipóteses de ir...

Um beijo Dulce e bom fim de semana

9:53 da tarde  
Blogger margusta said...

Já faz muito tempo que não leio os artigos da XIS, mas confesso que adorava ler esta "revista". O artigo é excelente e dá muito que pensar...

Obrigada pela visita multipla na "minha casinha" , e pela força em relação ao activeX...espero que sim, que tudo melhore...

Beijinhos para ti e bom fim de semana!

11:36 da tarde  
Blogger Su said...

texto excelente
merci pela partilha

eu não estarei no chiado, mas espero ler.te aqui e desse modo vou contigo

jocas maradas

6:50 da tarde  
Blogger saisminerais said...

Prontos mais uma vez....
Como entendo este tema, parece tirado d minha vida.
boa escolha amiga Dulce, parece que alguém me entrevistou...
Deixo-te aqui um beijinho
Ps: A ver se é desta para ir carregar a caixinha manhosa que se esvai sem pré aviso e se desliga pelo meio...
lesrrsr

8:41 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Escolher é arriscar, errar, decidir. Por nós, às vezes pelos outros, mas viver sempre será o risco de lutar pelo que se quer. Beijinhos.

11:37 da manhã  

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