sexta-feira, março 17, 2006

Em nome do amor puro

(...)O que eu quero fazer é o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado, foi parar a Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se. Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim?
Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato. Por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à minima merdinha entram “em diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bioecológica da camaradagem. A paixão, que deveria ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há. Estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromisssos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o medo, o desiquilíbrio, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho” sentimental.
(...)
Amor é amor. É essa beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor é para nos amar, para levar-nos de repente ao céu, a tempo de ainda apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor á uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma conveniência assassina.
(...)
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita. Não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que se quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar. O amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha –é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.. Não se pode ceder, não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

CARDOSO, Miguel Esteves, ”Último Volume”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001, p.75/76/77

13 Comments:

Blogger Paula Raposo said...

Fiquei estarrecida com este texto do MEC!!! Subscrevo-o do princípio ao fim...sem lhe alterar, nem acrescentar qualquer ponto, vírgula, palavra!! Quando Alguém escreve desta maneira sobre o Amor, só posso concordar com tudo!! Beijos, Dulce.

12:24 da tarde  
Blogger sinais said...

de acordo, mas acrescento também do mesmo autor «o amor é fodido!»

1:45 da tarde  
Blogger wind said...

Já li várias vezes este texto e acho-o sempre lindo, o amor na sua plenitude. beijos

2:56 da tarde  
Blogger Wakewinha said...

Paradoxal depois de um livro com o título "O amor é fodido", não? Eu julgo que as pessoas agora não se entregam por egoísmo. Ou por mágoa com o passado. De uma forma ou de outra? São elas quem ficam a perder... ;)
Beijito e bom final de semana*

2:57 da tarde  
Blogger anatema said...

Dulce. Qué hermoso todo lo que transcribes sobre el amor. Es verdad. El amor es así. Más cuando se cree que se tiene se evapora como por arte de magia. De mala magia. Un beso.

10:08 da tarde  
Blogger marakoka said...

gostei de reler...muito

jocas maradas

11:02 da tarde  
Blogger saisminerais said...

Ola Dulce
li e subscrevo, ms...
Não concordo plenamente!
Ainda existem os que se apaixonam, os que mesmo sabendo dos males que xistem e ainda conseguem contra ventos e marés ir em frente... Falamos dia vinte e cinco
beijinhos
Bom fim de semana

3:16 da manhã  
Blogger escrevi said...

É...

Bjs.

12:00 da tarde  
Blogger AQUENATÓN said...

Que te hei-de dizer eu, aquele a quem o amor puro, sempre fugiu e enganou ?

Eu sei que ele existe...Pressinto-o!
Mas nunca o pude alcançar.

E acredito que " Só um minuto de amor pode durar a vida inteira "... já que não o podemos agarrar para sempre !

Bji

12:51 da tarde  
Anonymous Carlos said...

pega numa flor

a mais linda do teu jardim

e com carinho dá a quem amas,

Pega um sorriso,

aquele sorriso franco e doe

a um amigo que está triste

pega um raio de luz e esperança ,

uma rosa branca, fala de paz ...

fala da ternura , fala do amor

fala da vida , da flor que desabrochou

da criança que acabou de nascer em Ti...

podes mudar o mundo

Só Tu ...

3:15 da tarde  
Blogger lena said...

amor é amor sim,
faz algum tempo que o li, foi bom reler um pouquinho aqui de novo

alimentas-me a alma Dulce


beijinhos muitos

lena

10:08 da tarde  
Blogger José said...

Este cantinho é muito especial pelas boas escolhas que por aqui aparecem e pelos próprios textos da autora, mas esta escolha do amor puro é dos excertos que por aqui li, dos mais bonitos, com uma grande definição sobre o verdadeiro amor, porque realmente o amor hoje é mais um pacto social do que sentimental.
Parabéns Dulce por esta bela escolham. Beijinhos

12:00 da tarde  
Anonymous Rute said...

Estudei este texto na escola e apesar de não concordar plenamente com a primeira parte, pois acho que ainda se vê muitos verdadeiros apaixonados, ainda que menos do que antes, adorei a maneira como o autor descreve o amor! Todo o texto faz referencias tão verdadeiras do que "o amor é" e do que "o amor não é".. Adoro!

1:43 da tarde  

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