sábado, maio 26, 2007

O vendedor de nougats

Chegava a meio da manhã, já o sol queimava. Antes de o ver já o ouvia ao longe apregoar bem alto o que trazia no cesto de verga para vender. Nos últimos anos, e porque talvez o cesto se lhe tornara pesado, substituira-o por um grande saco de plástico que, ora arrastava, ora carregava sobre as costas curvadas.

Há muitos anos que o conheço. Há muitos verões que o vejo calcorrear o areal de uma ponta à outra, em cada ano inventando novos pregões. A cada ano mais envelhecido e tisnado.

Chamo-lhe Vasco Gonçalves pela incrível parecença que tem com o General. Não fui eu que lhe atribuí o nome, mas uma amiga que também frequenta há vários anos o mesmo areal. Nos primeiros anos vendia nougat. "Três, ceeeem! Três, ceeeem", apregoava bem alto. Ainda era o tempo dos escudos. Todos os verões lhos comprava por diversas vezes. Língua da sogra era o segundo pregão. Trazia-as num saco de plástico transparente que agitava no ar enquanto gritava "há língua da sooooogra!!!!!" e de um qualquer canto da praia corria sempre algum miúdo agitando os braços.

Os anos foram passando. Os escudos deram lugar aos euros e todos envelhecemos um pouco mais. Também a sua face se tornou mais cavada. As maçãs do rosto mais salientes num semblante magro. As costas mais curvadas. Os olhos mais vazios e as mãos indisfarçadamente mais trémulas. No Verão passado e como sempre me acontece, ouvi em primeiro lugar a sua voz. Quando o procurei à minha volta, não o vi de imediato. Tentei chegar até ele pela voz que se projectava no ar e que aos poucos se ía aproximando.

"Olhem, olhem", gritava com aquele seu timbre um pouco esganiçado. "Está barato", "agora é barato" oiço-o dizer cada vez mais perto ... e eis que o vislumbro agitando no ar o saco de plástico com as línguas da sogra. Caminha lenta mas decididamente pela areia quente do meio da manhã. Calças arregaçadas até aos joelhos e a camisa quase a sair por fora. A cabeça, cobre-a com um velho chapéu de palha de aba larga que lhe cai sobre os olhos, resguardando-os. Chamam-no ao meu lado e ele aproxima-se para satisfazer o pedido. É nesse momento que o vejo tão próximo que a realidade me abalroa. As mãos tremem descontroladamente e os olhos que por segundos me olharam, são já aqueles olhos vazios e perdidos que a muita idade exprime e a doença realça. Vi-o muitas mais vezes o verão passado mas evitei fixar de novo o seu olhar. Um olhar que incomoda cá dentro. Uma expressão em que vejo que uma parte de si já se desligou da vida.

Há dias, ao passar na Praça de Espanha, reparo numa figura que me é familiar. O mesmo chapéu de palha embranquecido pelo sol e o saco com as línguas da sogra agitado no ar. Enquanto o sinal esteve fechado pude observá-lo um pouco. Debaixo de uma árvore estava o saco maior e ele por ali andava junto ao sinal à espera que os carros parassem para poder apregoar a sua mercadoria. Apenas vi os gestos, não lhe ouvi o pregão. Depois, o sinal abriu e ele recuou para o relvado. A cabeça baixa e os ombros mais curvados.
Senti uma enorme tristeza de o ver por ali. Uma angústia de o saber cada vez mais envelhecido e sem condições de poder parar e descansar. Ou não será assim e serei eu que estou apenas a imaginar coisas ...
Junho está à porta e qualquer dia apetece voltar à praia. Veremos se o oiço de novo: "Olhem, olhem...."

24 Comments:

Blogger viajante said...

Que maravilha de texto.
(E volto a lembrar-escrevi há dias num comentário- a senhora das bolas de berlim, na Praia das Maçãs e as bolachas que não recordava o nome: linguas da sogra.)
Porque será que tantos idosos não têm o descanso que merecem?
Porque será que o ócio preenche a vida dos meninos que nascem em berço de oiro?
Porque será, porque será..........?

7:20 da manhã  
Blogger wind said...

Achoo que também conheço esse senhor, se estiveres a referir-te à Costa.
Muito bom este texto, pois retrata o envelhecimento e a necessidade de trabalhar até ao fim...
Beijos

2:14 da tarde  
Blogger Dulce said...

À Wind:
Sim é na Costa, nas praias do centro da vila. E já por lá anda há muito tempo

3:01 da tarde  
Blogger AnaG. said...

Que belo texto!!
Sereno, mas que nos reporta para situações tão reais.

Acho que o envelhecimento nunca devia acontecer....

Boa semana.
Beijinhos

9:45 da tarde  
Blogger Era uma vez um Girassol said...

Há vidas difíceis...
Um texto que mexe connosco.
E faz pensar em tanta gente com um destino tristonho.
Bjs

11:00 da tarde  
Blogger A. Jorge said...

Um texto lindo que nos faz recordar todos os vendedores de nougats que passaram pela nossa vida. No meu caso conheci alguns e também eles tiveram muito para me ensinar. Tinham sempre uma alcunha qualquer que embora não parecesse era-lhes dadas com carinho.
As coisa agora estão um pouco diferentes, mas esses mais velhos de que falas neste teu magnífico texto e que viveram uma vida inteira dedicada à "arte", deviam sim, estar a usufruir de um merecido descanço!

Abraço

Jorge

http://vagabundices.wordpress.com/

12:06 da manhã  
Blogger mfc said...

Aqui na Póvoa eram os pregões da "Língua da Sogra" e o do "Olhóóós pãezinhos de leite fresquinhos!"
Agora não sei como é... deixei de ir à praia, porque esta água(temperatura) parte-me os ossos!

2:02 da manhã  
Blogger mafalda said...

Excelente texto, Dulce. Escreves muito bem e o que leio, por empatia com o sentimento que pretendes exprimir, é verdadeiramente sentido. Neste caso, atrevo-me mesmo a dizer sofrido.

Um beijo.

2:10 da manhã  
Blogger José said...

Seeeeem palavras, com este retrato do quotidiano, que visiona a vida de quem a quer viver sem parar, aqui de certeza por necessidade mas também porque parar é morrer.

10:56 da manhã  
Blogger Maria said...

já tinha passado por aqui ontem, Dulce.
Acabei por apagar o comentário que tinha feito, logo a seguir à tua resposta à wind. Porque este texto mexeu muito comigo.
Mas voltei hoje, e voltei porque cada vez é mais difícil vermos uma luzinha ao fundo do túnel que conduza à solução de problemas deste tipo.
Esse homem, já velho, tinha o direito de estar a descansar, de não ter que trabalhar para sobreviver.
Da mesma forma que houve homens que nunca foram meninos, há também velhos que nunca saberão o que é uma velhice sossegada e com o conforto necessário...

Um beijo

5:42 da tarde  
Blogger sonhadora said...

Caminharei pelos trilhos da noite, sempre sonhando. Não deixarei que me destruam os meus sonhos ainda que digam que os não tenho.Será que não é um direito de todos nós?
Beijinhos embrulhados em abraços

6:15 da tarde  
Blogger Paulo T Pires said...

A vida nem sempre nos trás (ou parece trazer) a recompensa justa. Seja como for, fizeste um excelente homenagem aos Vascos Gonçalves deste país. E embora, talvez eles nunca venham a saber, pode criar alguma espécie de solidariedade e sensilidade dos teus leitores para com eles.

8:27 da tarde  
Blogger augustoM said...

Há muito, muito tempo, quando ia à praia, o pergão de que mais gostava, era de uma mulher que, vestida de branco, com avental branco também e cabeça coberta com chapeu de palha, gritava: Olha a bola perlimpimpim...Bons tempos, ainda não tinham descoberto as pipocas, graças a Deus.
Um beijo. Augusto

9:21 da tarde  
Blogger Luis Eme said...

Gostei de te ler, Dulce...

Há pessoas que só param, quando a "máquina" desliga...

9:55 da manhã  
Blogger Cusco said...

Olá Dulce! Mais um bom texto dentro dos elevados padrões de qualidade a que estamos habituados.
Por aqui é uma autêntica praga de vendedores de bolinhas de Berlim!
De ano para ano são cada vez mais! E começam cada vez mais cedo, pois este ano já consegui fazer praia e já lá andavam…
São uma praga não só pelo barulho que fazem, como pela tentação que representam..

bJINHO

10:18 da manhã  
Blogger 100smog lda. said...

ILÁRIA GABRIELLI venceu o ABELA E O MESTRE em Itália! Será a nossa imagem de marca.... mais desenvolvimentos e actualizações, não deixem de comentar estamos muito entusiasmados com a força de todos!!! AJUDA NOS A PROMOVER!!!CONTAMOS CTG! VISITA o site e ve os videos das varias entrevistas e imagens!!!

1:01 da tarde  
Blogger Alecrim said...

Ai, Dulce!
Hoje fizeste-me chorar...

9:06 da tarde  
Blogger TINTA PERMANENTE said...

Sempre houve, sempre haverá lingua da sogra; da mesma forma que a velhice sempre foi a silenciosa inimiga que o Tempo arrasta consigo. Há uma diferença que lhe encontro: antes, a velhice era uma dignidade; hoje é um fardo!
Abraços, amiga!

1:55 da tarde  
Blogger Maria said...

Passei...
... deixo-te um beijo.

2:16 da manhã  
Anonymous madrugada said...

As coisas fabulosas que eu descubro!...

Texto fabuloso.

9:29 da manhã  
Blogger Poesia Portuguesa said...

Olá...

Não tenho o teu email, por isso vim aqui dizer-te que está aberto um concurso de contos aqui:
http://horabsurda.com/moodle/
Acede a esta página e informa-te, podes e deves concorrer.
Um abraço ;))

12:44 da tarde  
Blogger irneh said...

Infelizmente, cada vez serão mais aqueles que têm de se arrastar até ao fim dos seus dias a vender "línguas de sogra". O pior é que, em contrapartida, serão cada vez menos aqueles que poderão comprar...

3:30 da tarde  
Blogger poetaeusou said...

*
da
Dulce
só pode
*

5:52 da tarde  
Blogger Pepe Luigi said...

Fabulosa a tua forma verdadeira e tão natural dos teus contos reais.
Tens o dom de uma encantadora cronista.
Tocou-me muito esta tua descrição!

Um beijinho
do Pepe.

8:42 da tarde  

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