sábado, maio 19, 2007

Encontro com o rio




Hoje marquei encontro com o Tejo. Já a tarde caía a pique quando saí de casa. Pautas debaixo do braço e determinada a fotografar o cair da noite sobre o rio. Pelo caminho fui apreciando os cambiantes de luz. O céu apresentava-se de um azul pálido, aqui e ali levemente pintalgado de rosa. Fica mais belo quando há nuvens no horizonte, refractando-se a luz nas suas várias camadas.

Ao descer do autocarro vi que à esquerda o crepúsculo era mais denso, enquanto que para o outro lado do rio, onde o sol já se havia posto, o horizonte se coroara de alaranjado.

Chegara um barco e tive que ziguezaguear por entre as pessoas que apressadas, se dirigiam para os autocarros. Homens e mulheres - muitas mulheres - em cujos olhos não se reflectia este crepúsculo que procuro.

Saem aos magotes, olhos fixos no passo seguinte, atropelando-se quase. Há despedidas e pequenas correrias e subitamente o largo fica vazio.

A luz alaranjada do candeeeiro realça a solidão do cais. Os poucos passageiros que embarcam para a outra margem, desapareceram já dentro do barco e aguardam sonolentos a hora da partida. O rio escurece a cada minuto que passa e ali à beira da água, por momentos sozinha, sobe até mim o reconfortante som da água que assedia o cais. A outra margem salpicada de um frémito de luz parece cada vez mais longe à medida que a noite cai, sobrevivendo ainda e apenas, ao fundo para lá da ponte, aquele halo derradeiro e mágico que eu tanto espero.

Procuro o melhor ângulo. A melhor luz. Procuro fotografar o que os meus olhos registaram já. Esqueço-me das horas e avanço pela beira-rio. Apoio a máquina no paredão. Debruço-me na procura do enquadramento perfeito. Alguém que passa comenta qualquer coisa sobre o que estou a fazer e nesse momento "acordo" e vejo que várias pessoas circulam também por ali. Alguns estrangeiros também de máquina na mão. Outros que procuram sítio para jantar. Volto para trás e ao passar pela grande cervejaria de esquina, noto que está cheia. Junto às janelas bem iluminadas há gente que conversa animadamente. Cá fora, as vozes chegam difusas.

Só agora me apercebo que corre um ventinho fresco e persistente. Despenteia-me. Já de costas para o rio oiço bater as portas de ferro do cais. Outro barco que chega. Já não olho. Já não fujo. Entro na noite.


(Fotos, minhas - Cacilhas, 21 horas)

13 Comments:

Blogger Maria said...

Entras no fim de semana, e da melhor maneira.
Junto ao rio, com estas fotografias lindíssimas...

Beijinhos, sortuda

4:07 da manhã  
Blogger wind said...

Maravilhosa prosa, que nem sei o que escrever.
Descreveste o belo do pôr do sol e como se perde o sentido do tempo a tirar fotos e ao mesmo tempo, focaste o tempo daqueles a quem o tempo é sempre sem tempo:))))
beijos

11:18 da manhã  
Blogger Betty Boop said...

Fizeste-me recordar um foto que em tempos me foi oferecida (chiu!!!! é segredo!!!), uma foto proíbida, por proíbido ser o amor com que me foi dada... o nascer do sol por trás da ponte sobre o Tejo!
Foi com um olhar cheio de vida que a recebi... bem diferente desses de que tu falas...

Boas recordações!

12:12 da tarde  
Blogger della-porther said...

Dulce


muito bonito o pôr-do-eol...texto e foto

della

4:16 da tarde  
Blogger Alecrim said...

Lindo o rio, lindo o texto!

11:34 da tarde  
Blogger A. Jorge said...

Obrigado pela visita e pelas belas palavras que já nos habituaste!

Mais comentários para quê?

Um abraço

Jorge

http://vagabundices.wordpress.com/

12:35 da manhã  
Blogger Isabel said...

Entraste no fim de semana, como tinhas previsto, da melhor maneira, fotografando o teu Tejo; já a mim , não me aconteceu o mesmo. Enfim, quem somos nós para não condescender a um pedido do filho, quando nos lembramos que, também, já tivemos a mesma idade e os mesmos interesses?!

Bjt

12:54 da manhã  
Blogger Pedro Branco said...

Cobres-me o leito como quem aconchega
Iluminas-me o espelho de tanta luz
Ó Tejo, corrente de mim que não sossega
E que teimosamente me consome e seduz!

Guardas os amantes nocturnos, os suores de todas as jornadas
Cantas baixinho os segrredos de Lisboa
Ó Tejo, presente de todas as madrugadas
Que cobres o passado e tudo em ti ecoa!

Sabes bem, rio acima rio abaixo
Do amor que te tenho. Saberás?
Sou eu, aquele menino pobre e cabisbaixo
Que um dia te disse: Tejo, fica sempre aqui. Não vás!

Dá-me todas as cores de todas as horas
Canta-me todas as gaivotas de cada viagem
Ensina-me as palavras com que choras
Todas as pedras que encontras à passagem

Tejo, jardim desta gente, desta cidade
Que tens nas águas o mais fundo de ti
Que tens o tempo da eterna liberdade
E tens o perfume dos olhos de Ary!

2:34 da manhã  
Blogger bono_poetry said...

gostei do teu desenho....a imagem que passa....descreve em relevo ...o que tambem conheco...e um passeio bom....um encontrar da alma....e bom...eu volto..

12:15 da tarde  
Blogger AnaG. said...

Gostei muito de te acompanhar neste passeio.
Consegues, com as tuas palavras, transportar-nos para os lugares que descreves.

Gosto muito de te ler.

Beijinhos

4:51 da tarde  
Blogger Pepe Luigi said...

Descrição muito rica em que a tua narração nos leva ao poder da realidade no sentido imaginativo.

Um Bom Fim de Semana.
Bjs.

7:14 da tarde  
Blogger Luis Eme said...

É bom entrar na noite, rente ao tejo...

11:08 da manhã  
Blogger poetaeusou said...

/
A luz alaranjada do candeeeiro realça a solidão do cais
/
ji
/

12:16 da tarde  

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