Alguns verões
Dorila, Noémia e Idália. Chamavam-se assim, as "meninas". Solteiras as três e de idades entre os trinta e os quarenta anos.
Dorila era a mais velha. A matriarca. A mãe de todas. Mais baixa e redondinha que as suas irmãs, era doce mas de poucas falas. Seria, segundo creio hoje, a que geria a governo da casa.
A do meio era a Noémia. Magra, um pouco brusca no falar e muito rápida no agir. Era a mais despachada e talvez a mais enérgica. Falava por arranques, quase que espicaçando aqueles a quem se dirigia.
Idália era a mais nova. Sempre foi a minha preferida. Morena e roliça. Alegre nas falas e no olhar e com uma entoação de voz que raiava o desafio.
Era em casa destas três irmãs que eu passava as férias de verão. Lembro-me que chegávamos sempre à estação de Loulé já de noite e era de táxi que fazíamos o percurso até à vila. As ruas acolhiam-nos, desertas, e até a Avenida principal mal iluminada se encontrava vazia de gentes.
A casa ficava mesmo ali numa daquelas transversais à Avenida, numa rua silenciosa de casas baixas. Penso que já nos esperavam, pois a porta era rapidamente aberta à nossa batida e lá dentro, naquela grande sala que era simultaneamente sala de trabalho e de visitas, nos aguardavam as três irmãs sempre com sorrisos de boas vindas e palavras bem dispostas.
O tempo ali, passava-se lentamente. Quarteira era a praia mais perto e para lá íamos umas vezes por outras. Outros dias passava-os ali mesmo na vila, entre passeios pela Avenida e o desejo sempre insatisfeito de uma ida ao cinema, mesmo ali na outra esquina.
Recordo-me de voltar dos passeios e me empoleirar do lado de fora da janela da sala, sempre aberta, tentando assustá-las, pois era mesmo ali que se sentavam as irmãs a costurar.
À noite, quando o calor apertava, ou nos sentávamos à porta da rua em cadeirinhas baixas ou íamos para cima, para a açoteia, ali ficando a conversar e a rir, a cantar e a contar as estrelas, até que o sono viesse.
Lembro-me bem do interior da casa, semelhante à maioria das habitações algarvias antigas. Um longo corredor que atravessava a casa toda, dispondo-se de cada lado, os vários quartos. Mesmo ao fundo a cozinha, que dava para um pátio interior cheio de flores. Junto à parede, um pequeno lago escurecido pelo tempo, onde apenas dificilmente víamos alguns peixes fugidios. Também por lá havia um cágado que lentamente se arrastava para os cantos mais frescos e escondidos.
Era um local sossegado onde apetecia ficar à fresca, mas era na grande sala que eu mais gostava de passar as tardes. Numa estante ao canto alinhavam-se dúzias de pequenos romances de cordel. Devo tê-los lido todos. Encolhida no sofá, deixava-me levar pelas mais variadas histórias de amor enquanto as tardes passavam sem eu quase dar por isso.
Neste espaço passei inúmeros Verões da minha adolescência. Quase vinte anos depois voltei. Lá estavam ainda. A casa. As três irmãs. Quase tudo na mesma, como se o tempo, benévolo, não tivesse querido mudar nada do que eu com tanto cuidado guardo.
Dorila era a mais velha. A matriarca. A mãe de todas. Mais baixa e redondinha que as suas irmãs, era doce mas de poucas falas. Seria, segundo creio hoje, a que geria a governo da casa.
A do meio era a Noémia. Magra, um pouco brusca no falar e muito rápida no agir. Era a mais despachada e talvez a mais enérgica. Falava por arranques, quase que espicaçando aqueles a quem se dirigia.
Idália era a mais nova. Sempre foi a minha preferida. Morena e roliça. Alegre nas falas e no olhar e com uma entoação de voz que raiava o desafio.
Era em casa destas três irmãs que eu passava as férias de verão. Lembro-me que chegávamos sempre à estação de Loulé já de noite e era de táxi que fazíamos o percurso até à vila. As ruas acolhiam-nos, desertas, e até a Avenida principal mal iluminada se encontrava vazia de gentes.
A casa ficava mesmo ali numa daquelas transversais à Avenida, numa rua silenciosa de casas baixas. Penso que já nos esperavam, pois a porta era rapidamente aberta à nossa batida e lá dentro, naquela grande sala que era simultaneamente sala de trabalho e de visitas, nos aguardavam as três irmãs sempre com sorrisos de boas vindas e palavras bem dispostas.
O tempo ali, passava-se lentamente. Quarteira era a praia mais perto e para lá íamos umas vezes por outras. Outros dias passava-os ali mesmo na vila, entre passeios pela Avenida e o desejo sempre insatisfeito de uma ida ao cinema, mesmo ali na outra esquina.
Recordo-me de voltar dos passeios e me empoleirar do lado de fora da janela da sala, sempre aberta, tentando assustá-las, pois era mesmo ali que se sentavam as irmãs a costurar.
À noite, quando o calor apertava, ou nos sentávamos à porta da rua em cadeirinhas baixas ou íamos para cima, para a açoteia, ali ficando a conversar e a rir, a cantar e a contar as estrelas, até que o sono viesse.
Lembro-me bem do interior da casa, semelhante à maioria das habitações algarvias antigas. Um longo corredor que atravessava a casa toda, dispondo-se de cada lado, os vários quartos. Mesmo ao fundo a cozinha, que dava para um pátio interior cheio de flores. Junto à parede, um pequeno lago escurecido pelo tempo, onde apenas dificilmente víamos alguns peixes fugidios. Também por lá havia um cágado que lentamente se arrastava para os cantos mais frescos e escondidos.
Era um local sossegado onde apetecia ficar à fresca, mas era na grande sala que eu mais gostava de passar as tardes. Numa estante ao canto alinhavam-se dúzias de pequenos romances de cordel. Devo tê-los lido todos. Encolhida no sofá, deixava-me levar pelas mais variadas histórias de amor enquanto as tardes passavam sem eu quase dar por isso.
Neste espaço passei inúmeros Verões da minha adolescência. Quase vinte anos depois voltei. Lá estavam ainda. A casa. As três irmãs. Quase tudo na mesma, como se o tempo, benévolo, não tivesse querido mudar nada do que eu com tanto cuidado guardo.
12 Comments:
Algumas recordações ficam assim. Guardadas. Como que o tempo nem passando. Felizmente. Ou não. Beijos.
Adoro ler as tuas memórias sempre tão bem descritas ao pormenor. "Viajo" ao ler-te aos sítios ondes nos levas:)
beijos
"Boa noite Dulce"
(é assim a sugestão, é assim que releio a viagem ao passado - hoje)
Um beijo, amiga
Agradável prosa!
(E, sim, os teus olhos não te enganam)
Bj
POis também concordo que tens de pensar seriamente em passar a papel estas prosas ricas de qualidade, pormenor e emoção...
Para quando??????
Mesmo assim vou comentando!
Parabéns pelo dia da Mulher! E já vou atrasada...
Beijinhos
Boas recordações de um Algarve mais calmo...
Doce Dulce
recordações perfumadas.
que fazem olvidar.
As EÇAianas,Cidade.Serra e "Praia".
ou.
As J.Dinisianos,Serões da Provincia.
jino)
A mana que me desculpe mas eu sou da oposição.
" Bom dia Dulce.
Bjs."
Mais outra memória imemorável que só tu sabes contar.
Aproveito para te felicitar o teu excelente trabalho na pág.45 do livrinho que muito gosto "Que é o Amor?".
Parabéns.
Um beijinho
do Pepe.
Dulce,
Estou sentindo a sua falta no meu blog.
Será que lhe ofendi em alguma coisa?
Não me deixe assim desamparado!
Um beijinho
do Pepe.
;)
Com um sorriso!!!!!
Bom fds
Engraçado! Tenho umas imagens de umas Senhoras com as caracteristicas das referenciadas. Também em Loulé e cuja localização me parece ser muito, muito próxima da descrita, em que a minha avó ou ia deixar as compras ou ia comprar.... (A minha avó comprava roupa, em peças grandes que depois vendia a retalho)!
Em frente um pequeno restaurante, rasteirinho onde ia comer uma sopa...
Será que são as mesmas Senhoras!!!
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