sábado, fevereiro 17, 2007

Regresso

Finalmente oiço anunciar a chegada do comboio. Há muita gente na estação. Muitos jovens. Estudantes que voltam de fim de semana para casa. Na última hora mantive-me encostada ao vidro da porta da gare. Aqui está mais ou menos abrigado. Vejo outros comboios a chegar e a partir. Gente que desce apressada e desaparece rapidamente. Gente que chega, olha o velho relógio, compra o bilhete, fuma um cigarro, telefona. O telemóvel passou a fazer parte dos movimentos rotineiros. Para-se à espera do autocarro - e pega-se no telemóvel. Sentamo-nos no café e pegamos no telemóvel. Aqui nesta estação, quase todos os que me rodeiam estão com o telemóvel na mão. Eu também já peguei nele umas cinco vezes quer para telefonar, quer para mandar mensagens ou apenas para confirmar se me telefonaram.
Há bocado um homem alto aproximou-se de mim e em voz baixa disse-me precisar de cinco euros para o comboio. Dei-lhe algum dinheiro e afastou-se pausadamente até ao fim da gare. Passada meia hora, já não se recordando de mim, volta a abordar-me com o mesmo dircurso. As estações são pontos de circulação rápida e não se espera encontrar uma hora depois, alguém que já se abordou antes.
O comboio está mais próximo agora. As pessoas movimentam-se na gare à procura da sua carruagem. Procuro também a minha e apresso-me para o meu lugar. O lugar junto à janela já está ocupado. O meu é do lado do corredor. Digo boa-noite e sento-me. Tiro o cachecol, desabotoo o casaco e pouso a mala e o chapéu na pequena mesa que desliza à minha frente. As mãos estão geladas e faço um rolo com o cachecol para me aquecer. As portas fecham-se e há ainda gente a circular no corredor. Começam lentamente a deslocar-se as carruagens. As luzes estão baixas, e lá fora é noite e chove. Vejo a cidade que se afasta e acompanho por momentos as últimas luzes que desaparecem.
Há uma vaga sensação de tristeza e perda, algo que tento definir enquanto fecho os olhos e me forço a voltar ao princípio obrigando-me a recordar. A manhã. A viagem. A chegada. Os pensamentos enovelam-se, misturando todas as manhãs - quantas manhãs, já não sei dizer -, todas as viagens - as que sonho e as que realizo -, e todas as chegadas. Chegadas e partidas porque cada chegada implica sempre uma partida, da mesma forma que uma moeda tem duas faces ou que à alegria se segue sempre a tristeza.
Fujo destes pensamentos que se embaraçam abrindo os olhos para a realidade. Olho à minha volta e apercebo-me que também não é isto que quero - esta realidade escura. Densa de ruídos e vozes que não quero ouvir. Preenchida de rostos que desconheço, de falas que não entendo e de finais que não são felizes.
Fecho os olhos e faço um derradeiro esforço. Limpo os sons que me rodeiam e agridem. Apago estas luzes amarelas e baças e começo a preencher o meu vazio com a luz suave do fim da tarde, com o reconfortante ruído da chuva a bater nas vidraças, e até com um trovão que se adivinha. Está melhor agora! Respiro pausadamente e procuro o equilíbrio do abraço que me acalma. Recolho-me no conforto deste espaço-limbo que criei para mim e consigo até sorrir quando ao longe imagino a tua voz que docemente me chama.

8 Comments:

Blogger bettips said...

Um casulo, bicho da seda.
Uma vontade mulher. Faz boa viagem para dentro de ti. Bjinho

2:36 da manhã  
Blogger escrevi said...

É bom quando se tem um destino na vida...

Bjs.

10:55 da manhã  
Blogger A Rapariga said...

Mas já desperto alagada em suores e sinto...
os sonhos vivos, bem piores.
E o vento continua,
repuchando os pinheiros,
varrendo a rua.
"Respiro ao longe imagino a tua voz que docemente me chama."

8:13 da tarde  
Blogger poetaeusou said...

Inicio as viagens ao "meu eu",.
num comboio vazio e frio.
Voltando lotado de vivências,.
feitas recordações, que olvidadas estavam.
Obrigado por mais um bonbom, Dulce.
jinos.

9:35 da tarde  
Blogger Ana Ramon said...

É tão bom passar por aqui e dar de caras com estes belíssimos textos. Bom fim de semana, amiga

12:34 da manhã  
Blogger Kalinka said...

A vida é só uma…breve ou longa, é uma incógnita!
Na minha imagem mostro uma espécie de relógio que significa o «tempo», e ele é muito importante em todas as vidas. Perseguir e alcançar a felicidade é o sonho humano mais desejado, pois todos temos direito a um quinhão de felicidade.
Partilha comigo esta busca, perseguindo também a Felicidade.
Lamento não poder visitar este lindo espaço (blog) durante a semana, mas, a promessa de cá vir ao fim de semana mantenho-a.

Beijokas.

ADORO ler estas tuas histórias reais da Vida. Parabéns.

12:42 da manhã  
Blogger viajante said...

Tomara que a Viagem no Trans-Atlântico corresse tão bem como a do comboio...

2:22 da tarde  
Blogger Conceição Bernardino said...

Boa noite,

Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
Há-de ser luz do Sol em tardes quentes:
Nos olhos de água clara há-de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes!
“ Flor bela Espanca”

Esta é a forma que eu encontro para comentar
A mais pura a que eu vos quero entregar
A minha amizade...
Conceição Bernardino
http://amanhecer-palavrasousadas.blogspot.com

11:52 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home