domingo, novembro 26, 2006

Devia morrer-se de outra maneira

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

Hoje morreu Mário Cesariny de Vasconcelos

8 Comments:

Blogger Paula Raposo said...

Excelente este excerto do José Gomes Ferreira e a escolha certa na morte de um artista! Beijos.

8:16 da tarde  
Anonymous poetaeusou said...

AO Pintor, ao Poeta, ao Escritor.
Especialmente, para mim ao:
»»»»»»»»»»»»»METAFISICO««««««««««««
POEMA
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
in)Mário Cezariny
poetaeusou(felizpelasualibertaçãodefisica)

9:23 da tarde  
Blogger aldina said...

A eternidade é seguramente o seu despertar!

Até sempre

9:35 da tarde  
Blogger mfc said...

Era bom que partíssemos assim sem dor... sem saudades, sem...morrermos!

11:57 da manhã  
Blogger Sandra Cardoso said...

Não morreu...não pode morrer quem de tal forma viveu e quem tanto nos deixou...não morreu...ainda hoje o vi, em minha casa, no meu livro, nas suas palavras...não morreu.

12:41 da tarde  
Blogger augustoM said...

Mas afinal o que é a morte? Porquê tudo tem de acabar com ela? Não estaremos demasiado agarrados à vida para esquecer a sua existência? Afinal a vida se existe a ela o deve.
Um beijo. Augusto

1:33 da tarde  
Blogger Maria said...

Lindíssima homenagem a Cesariny e também ao José Gomes Ferreira, com este belo texto.
Um abraço

5:21 da tarde  
Blogger A Rapariga said...

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

7:15 da tarde  

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