quinta-feira, agosto 03, 2006

Palimpsesto

Este quadro acompanhou-me toda a vida. Desde criança ainda na casa de meu pai. Um dia, antes de voltar a casar pela terceira vez, entendeu dar-mo.
É um óleo sobre tela de um autor desconhecido. (Uma pintora, por sinal). Preside na minha sala como antes presidia na dele.
Uma antiga moldura dourada enquadra uma paisagem campestre. Os tons são de Outono. As duas árvores que se vêem de cada lado parecem agitadas sob o efeito do vento - as folhas alvoroçadas pela aragem.
No caminho pincelado de terra, alguém caminha. De costas para mim, parece-me um vulto de mulher. Difusa como a paisagem que a rodeia.
À sua esquerda uma velha casa é guardiã. Vejo-a de lado, perfurada de quatro janelas - buracos negros que não permitem enxergar a vida lá dentro.
O telhado de duas águas é inclinado, feito de pinceladas largas que fazem acreditar ser de colmo.
No primeiro andar, uma varanda. Vazia. Composta de traços leves. Pelo contrário, largas e desencontradas são as pinceladas que mostram o caminho.
O céu é de trovoada, pesado e denso, naquela côr amarelada e doentia que nos lembra a chuva que há-de cair.

Óleo sobre tela.
Uma paisagem bucólica que me transporta para longe. Que me permite imaginar para além dela.
Entro naquela casa pela porta da frente que não vejo daqui. De madeira, feita de ripas largas e já partidas. O chão também de madeira range sob os meus pés. Está vazia. As janelas - pequenos buracos rasgados a escopro - pouco deixam entrar da luz baixa do entardecer. Nos seus tímidos raios descubro uma réstea brilhante de pó que dança no ar à minha passagem.
Subo a escada que se encontra ao fundo. Parece suspensa - presa de um equilíbrio incerto. O corrimão frouxo e os degraus comidos pelo tempo. O silêncio cortado pelos gemidos dos meus passos.
No andar de cima o panorama é idêntico. Apenas um pouco mais de luz que passa pela grande janela de portadas abertas. Dali avista-se o rio ao longe. Imagino-o de águas turvas e turbulentas a condizer com o Outono.
Nem me atrevo a pisar a varanda - a protecção inexistente e o chão completamente coberto de folhas secas e poeirentas.
Fico cá dentro, a meio-termo, ouvindo o vento que despenteia as folhas das árvores. Olhando o rio ao longe e tentando perceber o seu correr voluptuoso através das pedras do seu leito.
Vou mais longe. Olho o céu carregado de nuvens amareladas de chuva e imagino alguém aqui sentado nesta varanda - a solidão do caminho entranhada na casa e na vida.
O ribombar de um trovão afasta-me da janela - projecta-me para fora do quadro.
De novo apenas uma velha paisagem bucólica.
De novo, apenas e só, um óleo sobre tela.
Apenas um óleo sobre tela ...

(Palimpsesto - do Gr. palimpsestos - Manuscrito em pergaminho, raspado por copistas da Idade Média, que nele fizeram uma nova escrita. Quimicamente, tem sido possível fazer reaparecer os caracteres primitivos)

6 Comments:

Blogger Paula Raposo said...

Excelente esse óleo sobre tela! Obrigada pelas palavras que me deixas nas romãs, onde o sonho é isso mesmo, sonho. Beijos.

11:33 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Joye diría que era " pungente " e tentaría acompanhar o pensamento. A pensar, muito provavelmente, noutra coisa...

11:54 da manhã  
Blogger AS said...

Dulce, um belissimo post, onde as palavras nos levaram tão longe...

Um beijo...

3:02 da tarde  
Blogger wind said...

Sinceramente nem sei que escrever.
Demasiado teu, interior, intimista, para me atrever a escrever algo mais, a não ser que também entrei no quadro.
beijos

3:55 da tarde  
Blogger José Alberto Mostardinha said...

Olá Dulce:

Ao visitar o SAIS MINERAIS, não sei porquê, resolvi ver o teu espaço.
Vejo que tens muita sensibilidade...e isso é bonito.
Gostei.

...estava aqui a pensar e já sei porque aqui vim...tive uma paixoneta adolescente que se chamava Dulce...deve ter sido por isso :-).

Um beijo,


Aguardo os teus prezados comentários no EG.

2:29 da manhã  
Blogger Su said...

que posso dizer para além de ....adoreiiiii ler.te
jocas maradas

7:57 da manhã  

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