segunda-feira, julho 24, 2006

Como fumo ...


Bate o sol nesta mesa encostada à janela. Reflectem-se as traves da cadeira no seu tampo, e quase parecem o seu prolongamento. Pelos altos vidros passa a rua. Sujos do pó de vários meses. Baços da chuva do Inverno e do pó da estrada.
Pouca gente aqui. É manhã ainda e a vida só existe lá fora.
A música é uma constante. Torna-se o cenário invisível para o que imagino.
Não queria estar aqui. Antes adormecida ou inerte - insensível -, naquela redoma protectora e maternal que nos afasta da dôr. Há uma angústia latente, uma espécie de nuvem que se adensa desde manhã. Não a quero explicar. Não a quero entender. Ela existe e eu apenas gostaria de ignorá-la. Tento. Esforço-me.
Procuro fazer o plano do dia, organizar-me através dos objectivos, mas insidiosamente ela aproxima-se tornando-me vulnerável e frágil. Dependente. Insatisfeita.
De costas para a entrada apenas ouço o barulho da rua e de alguém que entra. O ruído da louça no balcão estilhaça o silêncio que se deseja. E a música sobressai de tudo isto. Nos vidros as sombras da vida projectam-se no vazio. Nos ouvidos, os acordes em que me quero perder.
Karaoc - sexta feira, diz o cartaz afixado na parede.
Dou por mim a passar os dedos nos lábios traçando-lhes o perfil naquele gesto nervoso que me caracteriza. Os dentes apertam-se e rangem enquanto o pensamento se força a ficar preso neste movimento instintivo, congelando assim toda e qualquer divagação.
Nestas alturas sei - ou imagino - que o semblante se carrega e a testa se enrruga num espasmo que não contenho.
Um pássaro fere os vidros - breve no seu esvoaçar.
Breve é também a minha passagem neste tempo infinito. Breve e ténue como fumo.

(Foto minha)

8 Comments:

Blogger wind said...

Conheço essa sensação.
beijos

4:15 da tarde  
Blogger José said...

Não olhes assim, não penses no fumo, agora que te estás a encontrar, olha que esse castelo apesar de distorcido pelo vidro é muito real e majestoso. O dia também é feito de horas felizes, saber aí parar o tempo é que tem a sua ciência.
E o vidro também se parte, mesmo que não nos queiramos cortar!
Beijinhos

7:25 da tarde  
Blogger AS said...

Dulce, tens razão! Tudo é breve neste tempo infinito! Por isso devemos aproveitar todos os momentos bons, quando não há nuvens que se adensam e uma mão carinhosamente enlaçada na nossa...

Um beijo meu...

12:12 da manhã  
Blogger Era uma vez um Girassol said...

Seize the day...
Apesar da nossa passagem ser apenas isso, temos o talento de a transformar numa vida cheia, se quisermos.
Bonito texto!
Bjs

12:33 da manhã  
Blogger sonhos sonhados said...

Kerida Dulce

...breve é a nossa passagem...sempre!
mas
os acordes da vida
dão-lhe graça e frescura.

...breve será também a minha ausênsia,
prometo!
voltarei mais fresca
e
apaixonada
pelas nossas amigas
"as palavras".

jinhux létinha.

2:16 da manhã  
Blogger Paula Raposo said...

Gostei tanto de te ler!! Ténue como o fumo, como a dor que me dói tanto. Como senti estas palavras, hoje. Muitos, muitos beijos, Amiga.

10:48 da manhã  
Blogger augustoM said...

Já pensaste que a vida é muitas vezes, uma espécie de actuação de Karaoc? O que expressamos não é a nossa vontade, mas a dos outros.
Um beijo. Augusto

2:07 da tarde  
Blogger Mónica said...

oooo lindo! afinal há mais alguém que tem a mania das fotografias com reflexos!!! adorei!

9:26 da manhã  

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