terça-feira, junho 20, 2006

Ainda ontem ...

Procurei a noite para esconder a tristeza.
Procurei o silêncio para calar o grito.
Saí de casa para poder ser Eu.

As cortinas vermelhas translúcidas confessam segredos.
Os rostos anónimos ignoram o lamento.
O silêncio não existe.
A noite não esconde.

Saí de casa para poder ser Eu ... mas se o grito não sai e se a tristeza persiste, de que serve ser noite? para quê o silêncio?

Acredito que um dia a noite vai ser doce e o silêncio uma carícia.
Acredito que um dia ...
Acredito que um dia o silêncio e a noite se unirão num só grito. O nosso.



Hoje. Recordações.

Ele sentava-se no lugar do costume. Uma poltrona coçada ao lado da secretária.
Sempre invejei aquela secretária. Ainda hoje lamento não ter ficado com ela após a sua morte. Naquela altura, e talvez por ser ainda pequena, parecia-me enorme. De madeira escura com puxadores de um dourado antigo. Sobre o tampo, um vidro. Sempre alguma confusão de papéis, pelo menos assim recordo. Sob o vidro que a protegia, um pequeno recorte de papel com um poema. O "Cântico Negro" de José Régio.
Entre a secretária e o cadeirão, um candeeiro de pé antigo. Lembro o "abat-jour" amarelado com franjinhas e a corrente pendurada que servia para o acender. É engraçado como recordo claramente o seu gesto. O seu gesto e a sua expressão quando, baixando-se ligeiramente, olhava de lado, por baixo do "abat-jour" à procura da corrente que o acendia.
Como a memória é selectiva ... Esqueci porventura coisas importantes, e recordo com espantosa nitidez a sua expressão mil vezes repetida quando acendia o candeeiro da sala.
Sentava-se todos os dias ali naquele cadeirão para ler o jornal ou ver a televisão que se encontrava do outro lado da sala.
O meu lugar era normalmente em frente, sentada num pequeno banco de campismo ali colocado concerteza apenas aos fins de semana, os únicos dias em que eu lá me encontrava. Era um daqueles bancos com assento em lona, azul às riscas e pés metálicos, que se pode fechar e arrumar a um canto quando já não faz falta. Era ali que me sentava para ver, aos sábados à noite, a minha série favorita - Bonanza. Naquele cantinho, encostado ao "móvel do relógio". Para mim era o "móvel do relógio". Um armário alto e escuro de duas portas sobre o qual estava um relógio de mesa daqueles antigos, ainda de corda. Era de caixa quadrada de ponteiros escuros trabalhados e numeração romana, daqueles que batem as horas com um som metálico. Hoje é meu e ainda trabalha. Ele adorava relógios. Mais tarde ainda adquiriu um de chão, enorme, que tocava as Avé-Marias.
Também eu herdei a mania dos relógios. Não de pulso mas antigos, de mesa e de parede.
Naquele dia porém, não me sentara no meu cantinho. Ocupava o sofá amarelo de dois lugares, no sítio mais afastado do cadeirão. Junto a mim sentava-se a filha de uma amiga dele, um pouco mais velha que eu. Eu teria 7 ou 8 anos, ela 10 ou 12. Víamos televisão quando ela se levantou do seu lugar e se foi instalar nos seus joelhos. Ele aconchegou-a no colo colocando-lhe o braço por detrás das costas e ali ficou um bocado a conversar, a brincar e a ver televisão.
Porque guardamos nós certas memórias quando preferíamos esquecê-las? Esta, tão breve, tão insignificante - um momento apenas - dois minutos da minha vida e há tantos anos já, permanece para mim com enorme nitidez. E tudo porque eu sei que olhei para aquela cena e pensei - lembro-me perfeitamente que pensei - que não era capaz de uma atitude semelhante. E aquele era um gesto de filha. E era eu a sua filha. Eu, que nunca seria capaz de o fazer.
Fiquei ali no sofá amarelo de dois lugares, bem encostadinha ao extremo mais afastado, tentando desviar os olhos de ambos.
Um gesto tão simples. Uma mágoa que perdura até hoje.

9 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Porque será que existe tantas semelhanças?!
Porque será que as tuas histórias batem no fundo do coração?!
Porque será que navegamos no mesmo mar?!
Porque será... que...
Ambos tivemos o mesmo rumo, qual será o nosso rumo futuro?!

12:33 da tarde  
Blogger wind said...

Este nem consigo comentar, porque descreveste sentimentos que também já senti.
beijos

12:33 da tarde  
Blogger escrevi said...

Transportaste-me a casa dos meus avós e a um outro relógio, porventura igual, ou muito semelhante.
Como tantas outras coisas, essa foi mais uma que perdi, ao longo da vida.
Gostei muito!
Como diz o povo, recordar é viver...
Será?

Um beijo.

1:21 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Não posso comentar sentimentos tão profundos como os que descreves. Beijos.

4:13 da tarde  
Blogger JPD said...

A psiquiatria e a psicologia tem explicações para essa pergunta.
Guardar, guardar, eu acho que guardamos tudo. Estudos científicos dizem que apenas aproveitamos uma parte ínfima da capacidade do cérebro.
Modestamente, parece-me que nos lembramos facilmente daquilo que nos é muito agradável, daquilo que nos emociona muito, daquilo que nos remete para padrões de segurança que já não funcionam na actualidade e que nem nos importaríamos de neles nos vermos reconfortados, esquecemos ou recalcamos para mais tarde não nos atormentarmos daquilo que foi penoso, nos fez mal, nos fez sofrer.
Belo post.
Bjs

8:08 da tarde  
Blogger marakoka said...

pq será que são tão nitidos, momentos, que muitas vezes nem queremos lembrar...mas que nos "enchem" a cabeça..

jocas maradas de tempos

8:53 da tarde  
Blogger anatema said...

Amiga Dulce. Somos esclavos de secuencias pasadas que querríamos olvidar pero están ahí, fijas en la memoria, para que alguien como tú las recuerde y nos las ofrezca a modo de pequeños retazos de nuestra propia historia.

Amiga, el dolor es ese aguijonazo que nos iguala y une.

Un beso fuerte para ti.

11:57 da tarde  
Blogger Armando Moreira said...

Oi Dulce bom dia, que delicia, és uma contadora de histórias por escelência e tens nas palavras a emoção verdadeira...

Beijinhos Armando Moreira

10:12 da manhã  
Blogger lena said...

foi com emoção que te li doce menina

e cairam lágrimas, não consigo comentar tais sentimentos que muito me tocam também

bejos meus Dulce

lena

6:43 da tarde  

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