sexta-feira, abril 14, 2006

Nevoeiro

Hoje a manhã acordou enevoada. Não aquele nevoeiro denso e esbranquiçado que tudo encobre e mascara, mas aquela névoa leve e translúcida apenas, que como cortina de tule, atenua o horizonte.
O nevoeiro associo-o ao esquecimento - à turvação da memória.
O nevoeiro, associo-o também aqueles dias de Verão na praia, cada vez mais frequentes em cada ano que passa, em que um dia de sol radioso se transforma lentamente - subrepticiamente - no seu oposto. E como o esquecimento, o nevoeiro quando chega é de mansinho, ocultando lentamente as formas, até deixar delas apenas o que conseguimos ainda imaginar.
Têm uma certa beleza esses dias de Verão na praia. Acima de nós o Sol ainda brilha. O céu ainda é azul, mas do mar deixamos de ver primeiro a linha do horizonte e, sempre avançando, avançando, aquela névoa quase sólida acaba por tudo cobrir. Primeiro é uma mancha branca rasteira que depois se avoluma até tapar o céu e o Sol. E aquela sensação de frio que se apodera de nós. Um arrepio que se estende a todo o corpo, apesar do calor de momentos atrás.
Depois ... se tivermos paciência para esperar, o Sol volta a aquecer, o céu fica azul de novo e o mar, visível e luminoso.
Estranho é ainda aquele nevoeiro que se estende por "bancos", zonas de ocultação que se intercalam com zonas de visibilidade. Aqui no Tejo, em dias assim, é frequente passar-se a ponte em direcção a Lisboa e nada se descortinar abaixo dela, enquanto sobre nós o céu azul resplandece e o Sol brilha. Quase a chegar a Lisboa, abrem-se por vezes janelas nessa brancura densa que permitem ver bocados de rio ou pequenas partes da cidade que o Sol ilumina.
Fenómenos estranhos estes, que a natureza nos oferece. Belos, se tivermos olhos para ver e sensibilidade para descobrir a beleza oculta das coisas.
O esquecimento surge também de mansinho, ocultando fases antigas da nossa vida ou incidindo aleatoriamente sobre certos períodos. Inconscientemente esquecemos coisas menos boas - protegendo-nos - ou talvez uma forma de passarmos por um crivo os momentos que queremos esquecer.
Depois na velhice, acontece aquele facto curioso de lembrarmos em pormenor momentos da nossa infância que antes havíamos esquecido, e esquecermos outros muito mais recentes. Tal como o nevoeiro, o esquecimento tapa e destapa o amontoado de memórias, até que no final nos conduz a um pequeno círculo inundado pela luz primordial.

9 Comments:

Blogger escrevi said...

Gostei muito.
Um beijo.

3:25 da tarde  
Blogger wind said...

Cristo! Estava a ler-te e a ver o que realmente acontece. É mesmo assim como descreveste.Tudo, seja com o nevoeiro seja com o que nos lembramos, ou não. Genial comparação:)Boa Páscoa. Beijos

3:55 da tarde  
Blogger zecadanau said...

Votos de UMA SANTA E FELIZ PÁSCOA.

Um @bração do
Zeca da Nau

7:35 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Não a conheço nem a Dulce a mim e sinceramente nem sei como aqui vim parar mas não posso deixar de lhe dizer que o seu blog foi dos que mais gostei de ler até hoje.
Os meus sinceros parabéns!
Sofia

10:14 da tarde  
Blogger Su said...

cada vez mais lembro-me de antigidades que tenho na gaveta da memória..........tempo........

jocas maradas, feliz pascoa

11:28 da tarde  
Blogger Passaro Azul said...

Voei para te desejar a melhor e mais feliz Páscoa.
Com um abraço,

11:54 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Comungo da tua opinião. Plenamente. Beijos, Dulce.

10:12 da manhã  
Blogger lena said...

descreve como ninguém, é assim que se sente os vários momentos

beijinhos para ti doce menina


lena

3:31 da tarde  
Blogger jorgesteves said...

Serão nevoeiros ou apenas vincos mais profundos nos sentidos da nossa alma?...Circunflexo, reflexo, convexo ou apenas tempo sem nexo, com nexo?...
jorgesteves

7:13 da tarde  

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