quarta-feira, abril 05, 2006

Ainda os amigos...


Lembro-me bem de ti. Do teu rosto redondo. Do teu cabelo alourado, escorrido e curto, a acompanhar a linha do rosto. Lembro-me bem dos teus olhos - doces e expressivos. E tu lembrar-te-às de mim ainda?
Graça, era o teu nome. Fomos amigas durante anos. Colegas de turma primeiro, e depois amigas inseparáveis. Adolescentes ainda. Partilhávamos o amor pela vida, pelas novas experiências, pela música. Nas aulas sentávamo-nos lado a lado, e nos intervalos, percorríamos o pátio conversando e fumando o nosso cigarro, muitas vezes afastadas das outras colegas, em conversas infindáveis.
Fora da escola, frequentava a tua casa, íamos ao cinema, passeávamos. Dos teus namorados ouvia longas histórias (tu eras mais dada às novas experiências) e dos meus amores contava-te também amíude. Lembro uma noite em casa de J.A., depois meu namorado, em que sentados no chão ouvimos música até às tantas. Tu nessa altura namoravas com o D. e o romance andava no ar. Afastados de nós, que ainda estávamos a tactear-nos, vocês estavam num mundo só vosso, completamente alheios ao que vos rodeava. Lembro-me da música que ouvimos nessa noite: Rod Stewart - Maggie Mae, um tema que me acompanha até hoje. Devia estar na moda nessa altura.
Mais tarde integrámos um grupo de esquerda que actuava no meio estudantil, e distribuíamos jornais na escola - uma forma de chamar a atenção para os problemas que o país, e a educação em particular, atravessava. Eram tardes de discussão, leituras e análises de livros, distribuição de panfletos e autocríticas. O nosso mundo alargava-se, tornava-se mais abrangente. Já não eram só conversas de adolescentes, eram outros os temas que abordávamos.
Um dia mais tarde, decidi afastar-me desse grupo. Não porque tivesse mudado de lado, não porque não concordasse com as actividades que desempenhávamos. Hoje já nem me lembro porquê. Namorava com aquele que veio a ser mais tarde meu marido, e não sei se a minha decisão teve a ver com alguma opinião adversa da parte dele.
Quando te disse, não supus que o preço a pagar fosse o teu afastamento completo. A amizade que construíramos não valera de nada. Passámos de uma relação de proximidade absoluta para uma de total indiferença. Nem uma palavra me dirigias quando passavas a meu lado. Nem um sorriso.
Entretanto casaste e eu também. Mudámos de casa, mudámos de vida. Nunca mais soube nada de ti. Nunca me esqueço do dia dos teus anos - uma semana depois dos meus.
Não sei onde moras, o que fazes, se tens filhos, se te lembras de mim.
Nunca conheceste a dimensão do teu acto em mim. Só 25 anos mais tarde voltei a saber o que era ter um amigo. Só 25 anos depois consegui de novo entregar-me a alguém como me havia entregue a ti.
Estas são as palavras que ficaram por dizer. Apesar de tu não as leres. Ficam escritas - registadas aqui. Mais um exorcismo que pratico. Porque ainda hoje as marcas da tua presença estão em mim.

(Foto minha)

16 Comments:

Anonymous Sara said...

sinceramente nem sei bem o que te dizer. Sentesse a presença dela na tua vida, ainda depois deste tempo todo. É algo que nunca passei, e fico sem palavras de conforto, aalrgria ou carinho para te falar! Mas de qualquer forma gostei imenso do que escreveste e penso que umar "dedicatória" merecia ser lida e sentida pela Graça.
Peço desculpa por tter "roubado" o teu verso e tê-lo pôs-to sem identificação, a verdade é que não sabia que inhas sido tu a escrevel-lo. Contudo quando o li, vi aquela fotografia(a que pûs junto ao verso no meu blog), espero que não leves a mal.
Quando dou conta estou por aqui, no teu cantinho, a deliciar-me em leituras, extensas e menos extensas, tristes e alegres, a sorrir ou a impedir que a lágrima se escape. E é por aqui que vou aprendendo e conhecendo, coisas, sentimentos, palavras, que me eram desconhecidas.

Parabens por este espaço, está muitissimo bem contruido, cheio de carinho e alguma imaginação(;. O teu trabalho deu frutos coloridos e alegres : P

Um beijinho meu e da minha mão (que está para ali toda atarefada)


Sara

12:16 da tarde  
Anonymous Sara said...

ahhhh! o meu comentário está transborda de erros, e mais uma vez peço as minhas desculpas, mas escrever isto à pressa tem as suas consequências! Contudo, vou só corrigir um dos tantos erros:

*Um beijinho meu e da minha mãe (que está para ali toda atarefada)

12:20 da tarde  
Blogger wind said...

Antes de escrever algo parei para pensar. Há pessoas que nos deixam marcas tão fundas que custam a cicatrizar. Não conseguimos mais confiar em ninguém. Só passados muitos e muitos anos. E mesmo assim só numa ou 2 pessoas. Por isso entendo perfeitamente o que escreveste e exorcizaste. Beijos

12:42 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Compreendo-te muito bem mesmo. Beijos, Dulce.

12:43 da tarde  
Blogger escrevi said...

Recordar é viver...
Acho que se um dia a encontrasses tudo seria diferente. Não te esqueças de que tudo isso se passou numa época especial em que muita gente, (até pela idade que tinha), tomava atitudes incompreensíveis hoje, 30 anos depois e 30 anos mais velhos todos nós.
Não recordes com mágoa. Foi uma bela amizade, a vida é que foi traiçoeira. Pode ser que um dia, te rias, com ela, desses dias.

Um beijo.

1:56 da tarde  
Blogger anatema said...

Intenta recuperar esa amistad Dulce.Seguramente que tu amiga sigue recordándote con el mismo afecto que tú la recuerdas a ella.

Somos todos iguales. Buscamos amor y necesitamos darlo. En eso no nos diferenciamos los unos de los otros.

Llámala. Ella te lo agradecerá. No importa quién dé el paso primero. Lo importante es que os queda dentro la convivencia de aquellos años. Un beso.

3:03 da tarde  
Blogger jorgesteves said...

Repare na fotografia que acompanhe o seu (exorcismo!) texto: dois malmequeres, um focado outro um tanto desfocado. Provavelmente houve ocasião em que ambos, em tempo e distâncias diferentes, proporcionariam focagem diferente: talvez uma focagem contrária, ou não, talvez estivessem os dois com o mesmo grau de nitidez...
As coisas da Vida são assim: poucas vezes acompanham a musicalidade o 'era uma vez' que acabe no 'e foram todos muito felizes'.
Provavelmente a vossa amizade era mais fruto de pequenos (muitos) fios de circunstância, um pouco à mistura de afectos apenas consequentes. Talvez o tempo passado lhe crie (ainda) uma distorção na imagem passada e lhe pareça, hoje, algo de substancial que precise de exorcizar; talvez, se olhar outra vez, se fizer um pouco de força para focar melhor a imagem, se lhe conseguir descortinar a verdadeira dimensão e os exactos contornos, se calhar vai achar apenas um episódio da (sua) Vida. Bem menor que outros, com certeza...
Depois, depois talvez ache graça!
jorgesteves

3:29 da tarde  
Blogger luis manuel said...

Ainda os caminhos...a amizade e os amigos.
Procurá-los para ir ao fundo de nós mesmos, encontrar o lugar da tristeza e sentir um nó na garganta.
Ainda que pelo sofrimento, olhar que foi importante.
Que vale a pena arriscar e construir, por algo que não tem preço, apesar do custo que representa perder.

Um beijo, amiga

3:48 da tarde  
Blogger João said...

Beijinhos para ti

3:50 da tarde  
Blogger Peter said...

É um comentário banal e o texto não o merece, porque é demasiado bom, demasiado real.
Vocês e felizmente, porque aí demonstram a vossa sensibilidade, vivem mais intensamente estas situações.

4:50 da tarde  
Blogger Su said...

recordar.vivências.amizades passadas. sentires que estão sempre dentro de nós, até ao fim.
saudades.
é um prazer ler.te, sabias?:)
jocas maradas

8:51 da tarde  
Blogger Armando Moreira said...

Olá Dulce,obridada pela tua visita ao nosso blog, eu sou o encenador e dramaturco do grupo...ao passear-me no teu espaço, que achei fascinante, constatei que temos gostos em comum, artes, cinema teatro...volto para perder-me nas tuas paginas e embebedar-me com as imagens de escepcional bom gosto e enquadramento...

Beijo Armando Moreira

11:09 da tarde  
Blogger José said...

A vida é aquela viagem por vários caminhos, onde por vezes temos a companhia de amigos de peito mas com o percorrer, alguns vão seguindo outros trilhos perdendo nós o rasto dos mesmos, mas outros vão aparecendo e assim é constituída a vida. Temos de saber aproveitar todos os bocadinhos que podemos estar com os nossos verdadeiros amigos. Como sempre adorei a realeza do texto e também me reflecti um pouco nele, ao longo da vida também fui deixando de saber o rasto de certas amizades criadas na juventude.
Bjs

11:39 da manhã  
Blogger Benjamim Gil said...

Que bela página de um diário adiado que faz do passado um presente constante.

Beijos
Gil

11:58 da manhã  
Blogger perplexo said...

Deambulando pelo mundo dos blogs, sempre se encontra um texto que valeu os longos minutos que por aqui deambulei. Hoje foi o teu texto.
É uma pena que haja desencontros destes, sem razão, sem explicação, sem vantagem para ninguém. A conquista da tolerância reclama os seus estúpidos sacrifícios.

1:20 da manhã  
Blogger saisminerais said...

Fica escrito e lido por muita gente...Eu gostava de um dia ca entrar para te visita novamente eo teu texto fosse algo parecido comisto...Querida amiga, ainda bem qe te reencontrei aind bem que foi um mal entendido de ambas as partes, ainda bem que nos encontramos de novo, tantas coisas aconteceram, por tua causa vou parar o meu blog uns dias para que o meu Amigo Alex tenha mais tempo para comentar, e aproveito para por-mos a escrita em dia etc. etc.
beijinhos e obrigado por partilhares esse teus pensamentos profundos de amizades que já l+a vão e que se calhar todos temos. Faz com que tambem nos lembremos dos nossos velhos amigos que por um motivo ou outro ja não o são!

1:24 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home