quarta-feira, março 01, 2006

Exorcismo

I

Dizer não
a esta ruga
ao canto
da boca
sulco de
tristeza
goteira
de zinco
escorregadia
à melancolia
do dia
Reconheço
este rosto
antigo
que não quero mais comigo
este sorriso amargo
estes ombros desistindo
estas noites sem sono
este dormir sem dono
nem uma pedra sequer por travesseiro
este acordar forçada
debruçada tão para nada
à amurada
da madrugada

Ah renego
deste rosto
deste gosto
na boca
Deito sal
e cinza
e cal
neste espelho
nesta imagem
de mim

II

Olho-me procuro espanto-me Serei
aquela ali? Serei aquilo?
Não sei se sou
não posso ser
Só sei que não sei aonde está
aquele espelho vagabundo que guarda o real
rosto em que me reconheço
Este não é!
Partir? Pra onde? Fazer a mala?
Levar o quê na mala? Ah! partir sem mala
ao encontro de um rosto o meu que me
sonegam
Aonde procurá-lo? Onde recuperá-lo?
sobretudo agora que os espelhos começaram
a trair-me a cochichar de mim cúmplices
Que idade tem o meu rosto verdadeiro? Quem
me reteve aonde? a minha cara?
Alguém
a terá posto no Prego em dia de aflição?
Mas quem? aonde? Irei de penhor em penhor
espiar os espelhos
Talvez alguém quem sabe
eu própria a tivesse metido um dia numa garrafa
e atirado ao mar
Visitarei todas as praias
solitárias descerei ao fundo de todos os abismos
à procura de mim
Ah! abalar desta cara mercenária!
Sem destino sem armas nem bagagens para longe
abalar
hoje mesmo amor vamos fazer visita
ao ar
tua pátria teu elemento de nascença

LOPES, Teresa Rita, " Os dedos os dias as palavras", Figueirinhas, Porto, 1987, 231/233

7 Comments:

Blogger anatema said...

Dulce. Excelente poema sobre el tiempo y es espejo.

Te envío mi viejo espejo:

"Cabalgaron los años dulcemente
primero,
trotando apresuradamente
después.
Indiferentes pasan
días, meses, años.
El alma ignora,
no acusa
los embites de lo inexorable.
Espera anhelante...
añorando...qué?

El alma, muy adentro
escudriñando en la atalaya
de la espera.
Esperando madurez...?

El tiempo,
siempre el tiempo

De pronto, un día,
muestra el límite
aquello que inconscientes
qusimos alcanzar.

Ante un viejo espejo
hay un rostro que me mira
con ojos de experiencia
con ojos de inocencia
apagado ya aquel brillo
reflejo de ilusiones
al que han salido arrugas
por vivir mucho y poco
por esperar tanto...

ayer fui joven.

Un beso para ti.

4:49 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Demasiado real para conseguir comentar...Beijos, Dulce.

5:54 da tarde  
Blogger wind said...

Bolas este doeu! Desculpa, mas não comento. Beijos

10:14 da tarde  
Blogger AS said...

Tempos agora antigos
Que nunca mais regressem
Conseguirão abrir a mesma cicatriz
Ou criar uma nova...

Dulce, gostei do poema!

Beijosss

10:57 da tarde  
Blogger Fernando B. said...

Que bela construção poética onde a autora exorciza os fantasmas que a atormentam.

Doces Beijos,

12:08 da manhã  
Blogger AQUENATÓN said...

Ah, se nos espelhos marcassemos os dias, as horas, os minutos e os segundos de uma vida ...

Bji

10:01 da manhã  
Blogger lena said...

um belo poema. mais um de Teresa Rita Lopes
que se pode comentar a não ser que sabes escolher tão bem os poemas que partilhas,
doem as palavras num exoecismo atormentado

beijinhos meus, Dulce


lena

7:14 da tarde  

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