sábado, janeiro 13, 2007

Ensaios

Dez da manhã e já se formam alguns pequenos grupos. Está sol hoje, e ninguém se abriga debaixo das arcadas protectoras. Procuram no terreiro em frente o aconchego do Sol. Vão chegando aos poucos, um a um. Um a um, cumprimentam-se e por ali ficam conversando. De vez em quando olha-se para o carreiro que dá acesso ao local. Espera-se ainda por ele. Chega mais alguém que traz novidades. Aproximamo-nos para ouvir, mas eis que ele chega apressado. O barrete na cabeça, um sorriso ao canto da boca, o olhar fugidio.
Entramos. Arrastam-se as cadeiras numa confusão que sempre se repete. O som das vozes provocador. A procura quase infantil da parceira do costume. Homens para a direita. Sopranos para a esquerda. Ao meio os contraltos.
A um bater de palmas do maestro, todos se levantam. É o momento de aquecer as vozes e o ar enche-se de sons.

Nove e meia da noite. Está frio. À porta da igreja batemos com os pés no chão para que a circulação se faça e consigamos aquecer. Vão chegando com um sorriso e as boas-noites. As partituras debaixo do braço. A água nas garrafas, ou o chá para melhorar a voz. Mais mulheres que homens, sempre. Não há tempo para muita conversa pois ele já se aproxima. Pontual. Sobem-se os degraus gastos que dão acesso ao Coro da velha igreja. Não há cadeiras para arrastar. O maestro ataca as notas no orgão convidando ao aquecimento da voz. Em frente e por detrás dele, o altar antigo enquadra-nos. Vigoroso na condução dos temas, salta de um mais antigo para o que se ensaiou por último. Primeiro os sopranos. As vozes sobem, finíssimas, e eu, a quem a crença nada diz, penso que as vozes dos anjos teriam de ser assim. Amplificadas pelo espaço devolvem-se em ondas de magia pura. Depois os contraltos, baixos e tenores. Uma e outra vez e ainda mais outra até que o som se reproduza, perfeito. Não há recusas, suspiros de cansaço ou esgares de irritação. A música flui.
Termina-se como se começou. Com sorrisos. Um boa noite rápido devolve-nos ao frio da calçada e as ruas vazias parecem engolir-nos.
O largo junto ao rio é agora um espaço quase morto. Os passos soam fortes neste quase silêncio. Os táxis fazem quase fila.
Os olhos de quem se cruza desencontram-se. Apenas a música agarra ainda o sorriso.

8 Comments:

Blogger Paula Raposo said...

Bom fim de semana, Dulce. Beijinhos.

9:23 da manhã  
Anonymous poetaeusou said...

METAMORFOSE(52) Continuo, em procura.
Perpétua.
Do discernimemto.
Do Impulso.
Dois espaços fisicos.
Nazaré/Lisboa ou;
Igreja S.António.
Igreja Nª.Sª. Fátima.
Com calor ou frio.
A calma espera.
Ou,a aumentada ânsia.
Se ela se demora
Ansia/amôr ?
Cristo/Homem,perdoará.
Ele tambem amou...
Maestrina ? Uma irmã.
Lá e Cá.
Aí começava a duvida.
Aqui, ouvindo, a Antónia.
Sentia a Angelical Lena.
Lá com a Lena ao lado.
Omnipresenciavasse a Antónia.
Na cruz, Cristo/Homem, sorria.
Tambem tiveste dúvidas, Javé ?.
Coros, com as mesmas estrofes:
Não a louvar o Divino.
Sim a vida, terrena.
Teologia da Libertação.
Doutrina Social da Igreja.
»»Jovem prepara.
Desde hoje o teu lar.
E foge ao destino egoista««
Um pouco de mim, Dulce.
O quanto me fazes, regredir.
Obrigado
poetaeusou(adaptador)
um xino, extensivo á Paula.

12:10 da tarde  
Blogger wind said...

Tão bela a maneira como descreveste o espaço e o sentir:)
beijos

2:42 da tarde  
Blogger escrevi said...

Como sempre conseguiste fazer-me sentir a ambiência que vos envolvia.
Muito bonito.

Bjs.

3:03 da tarde  
Blogger Ana Ramon said...

Quando eu era adolescente assaltou-me um dia a ideia de querer vir ser cantora. Uma diva. Uma coisa assim belíssima, única. E comecei com aulas. Das aulas às apresentações públicas foi um instante já que era preciso que as alunas tivessem à-vontade no palco. Um terror permanente. Um suplício atroz. Brancas frequentes. Engasgos de voz. Dificuldades inultrapassáveis. Mais tarde e já crescidinha, fiz parte do Coro Nova Filarmonia que era dirigido pelo maestro Alvaro Cassuto, mais conhecido pelo Alvaro Cassusto :) e foi aqui que me apercebi do prazer, do entusiasmo, da cumplicidade, da alegria que era cantar em conjunto. Nos finais de cada espectáculo, íamos todos comer no meio de grande algazarra ou dançar em qualquer lado, descontrair do momento de tensão conforme a importância e responsabilidade do espectáculo. Os solistas nunca nos acompanharam. Completamente solitários. Reconheci perfeitamente todos esses momentos que descreves. E o meu sorriso também se agarrou graças à tua escrita. Um beijinho

3:15 da tarde  
Blogger Su said...

adoro ler....pois consigo visualizar , sentir, cheirar tudinho


jocas maradas de sons

1:24 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

poetanaosou.
se o fosse, dedicarte-ia um poema. Singelo. Sem floreados ou redondilhas (é assim?). Apenas tinha que ter, mais do que uma vez, a palavra OBRIGADO.

2:21 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ola amiga
Nada melhor que te visitar para descobrir que ando mesmo longe do que mais gosto...
Não me tenho de perder em explicações contigo porque me conheces.
Quero-te desejar o resto de bom Domingo, Deixar um beijinho e dizer que estive algures a ver inscrições para um jantar de blogs, vi que por enquanto vais sozinha! O meu carro esta mais uma vez na oficina e desta vez axo que é cancerisno! Se for caso ele deve ir desta para melhor e lá vou eu ficar a pé. Se arranjar boleia terei gosto em ir, se não houver uma alma caridosa que me leve, então sou obrigado a falhar.
Porisso se o meu amigo for e penso que vai, não te preocupes que eu então tambem vou.
Pode acontecer de te pedir para me inscreveres... Mas so te digo depois quando souber melhor o que me espera na proxima semana.
jocas

6:26 da tarde  

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