sexta-feira, dezembro 29, 2006

Ontem

O 25 de Abril apanhou-me no quinto ano de liceu. O meu segundo quinto ano, pois reprovara na área das ciências. 17 anos.
Um dia acordei e a minha mãe já voltara do trabalho. Nem chegara a apanhar o comboio para Lisboa. Nas ruas corriam já os rumores de que algo de importante se passava.
Um dia acordei e a rádio passava umas músicas fora do comum. Não pude ir para a escola. Fiquei ali colada à televisão. De ouvido grudado na rádio, e ao fim da tarde mais que uma edição do Diário de Lisboa para ler. Antes, devorar! Poucas folhas, mas tanto para dizer.
Nesse dia acordei e o sonho realizou-se. A minha mãe chorava de tanta alegria. Finalmente os sonhos realizados.
Nesse dia ficámos em casa. Seguimos tudo pela televisão quando ela começou a transmitir as notícias tão aguardadas. Nesse dia tão longo tanta coisa mudou.
Quando voltei ao liceu tudo tinha mudado também. À volta do gradeamento perfilavam-se militares de armas na mão - os sorrisos meio disfarçados atrás de uma esperada eficiciência. E as regras contornavam-se - a vontade de transgredir tão evidente. As batas brancas passaram a andar desabotoadas e depois rapidamente passaram à história. Nos intervalos e "furos" saíamos para a rua, desprezando as antigas ordens de permanência na escola. Fumava-se em algumas aulas. Entrava-se em diálogo com alguns professores.
Na rua, o ambiente de alegria era contagiante e aquele primeiro 1º de Maio foi a prova viva de que é possível. A união. O dar as mãos. A força. Se não o tivesse vivido, não acreditaria hoje.
Hoje! Trinta e dois anos depois. Parece que foi ontem e no entanto, como está esquecido! Parece que foi ontem que os vi sair de Caxias. Que emoção, ainda hoje quando revejo. Parece que foi ontem que a voz se toldava ao cantar Grândola Vila Morena. Parece que foi ontem
quando ainda havia esperança!
Hoje, há que ir às escolas lembrar aos meninos aquele dia tão do passado em que se acabou com o fascismo em Portugal.
Fascismo? o que era isso? Salazar? quem era? Revolução dos cravos? só mesmo em Portugal!
Zeca Afonso? Ary dos Santos? Que cotas! Que conversa antiga essa!
Hoje tudo isso está esquecido! O que interessa são as novelas, os Big Brothers e afins, os concursos ... tudo o que ajude a distrair, a adormecer, a converter-nos (vos) em gente dócil, gente que não pensa, gente que obedece, que não questiona. Hoje!
E afinal este passado ... foi ontem, ontem apenas!

15 Comments:

Blogger Paula Raposo said...

Foi ontem mesmo! E está esquecido. Quem o viveu sente como tu. Beijos meus.

7:30 da manhã  
Blogger viajante said...

(Estava a escrever e a Paula ultrapassou-me.Bj para ela)
Foi realmente ontem. E hoje lamentamos, não o 25 de Abril, mas tudo aquilo que ainda não temos. JUSTIÇA, IGUALDADE....
Mas a ESPERANÇA não morre.

7:35 da manhã  
Anonymous poetaeusou said...

LUTA-ESPERANÇA-25/1974-lºMAIO/1974.
FESTA DE UM POVO-TRAIÇÃO-DESILUSÃO-
E... ANTÓNIO ALEIXO.
Embora os meus olhos sejam
os mais pequenos do mundo
o que importa é que eles vejam
o que os homens são no fundo
Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão
Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo
CALAI-VOS que pode o povo
querer um mundo novo a sério
Eu não tenho vistas largas
nem grande sabedoria
mas dão-me as HORAS AMARGAS
lições de filosofia
poetaeusou (áesperadasmanhasquecantarão??????)

11:53 da manhã  
Anonymous Abelhão said...

E Morangos...
E Floribellas...
Todas diferentes...
Todas iguais...
Floridas...
E sem neuroneos...
Abelhão Bzzzeeeeesss...

12:30 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Bons dias, todos os dias em 2007 e seguintes.

1:34 da tarde  
Blogger Ana Ramon said...

Obrigada Dulce por mais estas memórias. Ás vezes penso que nada disso aconteceu e que foi apenas um sonho meu.

10:10 da tarde  
Blogger JPD said...

Feliz ano novo!
Em 2007 rever-nos-emos.

11:33 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Por opção, nunca quis abordar (ainda) o 25 de Abril no meu blog.
Ainda bem que o fizeste aqui, neste virar de ano. É um texto muito concreto, tudo o que escreveste é verdade, mas falta escrever tanto…

Tenho mais uns anos do que tu. Vivi em força a campanha eleitoral de 1972.
Fugi à polícia. No dia da concentração da CDE no M. Pombal. A correr, desde o Marquês de Pombal até ao Largo do Rato, nem sei por que ruas corri. Mas corri, era a única alternativa para fugir ao Cap. Maltês, com o pingalim a dar tareia...

“Se não o tivesse vivido, não acreditaria hoje.”

A questão fundamental, Dulce, é que os jovens que não viveram o 25 de Abril não acham que o antes tenha sido possível. Não acreditam. E quando falamos do assunto, acham sempre que exageramos.

“Zeca Afonso? Ary dos Santos?” E o Adriano, e o Manel Freire com a sua Pedra Filosofal, o Fernando Tordo com a “Tourada” (já se lia nas entrelinhas…) e todos os outros que eu não menciono mas que foram peças fundamentais para nos “abrir” as cabeças.


Passaram 32 anos. Ainda os estou a ver sair de Caxias. Mas alguns jovens acham que nós exageramos e que isto é uma estória… um trauma… uma outra coisa qualquer.

Passaram 32 anos. O primeiro 1º de Maio. Que bonito!
Passaram 32 anos… e foi ontem apenas, como tu dizes, tão lúcida, como sempre…

Um bom ano para ti e um beijo

p.s. desculpa o testamento, mas saiu-me…

2:33 da manhã  
Blogger blugaridades said...

Foi há 32anos! Como passamos pelo tempo sem que nos apercebamos da velocidade da vida! Parece que foi ontem, para nós, os/as que vivemos esse período. Cabe-nos também o papel de saber transmitir aos mais novos este saber de experiência feito. Recordar é viver e gostei de ter recuado este tempo todo num dos últimos dias do ano.
Beijinhos e bom Ano Novo.

9:02 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Dulce [+ família + amigos],

Bom ano 2007!

Que a vida nos seja generosa e, saibamos nós corresponder.

Tomemos ainda maior consciência que a nossa vida está intimamente ligada ao nosso Planeta-Nave-Mãe.

Cuidemos dessa nossa ligação com Gaia.

Cuidemos da nossa sintonia com o céu, sem nunca deixarmos de andar aqui em baixo, disfrutando da vida.

Abraço.

António

12:07 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Bom tema para a psaagem deste ano.
Sabes, eu tenho 33. Para mim não há memórias do 25 de Abril, tenho o previlégio de saber o que significa, mas tive pais que nunca me falaram do 25...

As crianças de hoje, filhas de pais da minha geração, não têm realmente presente o que era viver antes desse dia, ou nos dias que se seguiram.

Às vezes leio as pessoas que como tu escrevem com alguma inveja. Queria ter experimentado essa liberdade, esa mudança, ter feito parte da minha história.

Se calhar cabe-me "apenas" fazer com que os que vêm a seguir a mim saibam como era o antes...

3:20 da tarde  
Blogger Alice C. said...

O mais triste é que esta "ideologia do esquecimento e adormecimento", está presente tanto à esquerda como à direita. Há procedimentos tão iguais em autarquias do PSD e da CDU... que não só desonram o passado de luta contra a ditadura, como nos fazem questionar uma série de valores sociais.
Claro que a maior parte dos comunistas que nos governam (estou a falar de Almada, a minha cidade...), só conheceram a PIDE de nome... é por isso que usam com tanta desfacatez a propaganda ilusória...

4:51 da tarde  
Blogger TINTA PERMANENTE said...

Um cravo vermelho que fica depois do adeus a 2006...
Mais do que qualquer homenagem, seja antes abrir as janelas da memória. E sempre vale a pena. Como vale a pena estar (vir) aqui.
Afectuosamente

5:30 da tarde  
Blogger Dad said...

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.........*Feliz*
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.....******ANO****
....******2007*****
...***COM MUITO***
..********AMOR*******
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.......***DAD****

9:08 da tarde  
Blogger wind said...

Escreveste tudo tão bem e tão real, que só escrevo que assino por baixo, se deixares:)
beijos

10:11 da tarde  

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