quarta-feira, maio 31, 2006

Rua 1º de Dezembro

A Rua 1º de Dezembro, na baixa lisboeta, é uma rua sem grande história para mim. Uso-a apenas como passagem para a Rua do Carmo e para o Chiado que se inventa cada dia mais bonito, cada dia mais feliz. Nada me detém ali. Nem as lojas de filatelia onde em criança ía com o meu pai comprar selos para a minha colecção que agora jaz no fundo de um qualquer caixote, nem sei muito bem onde, nem o imenso supermercado de produtos naturais que oferece curas milagrosas para a queda do cabelo e para a celulite, nem a entrada íngreme para o Café Nicola onde prefiro entrar pela porta soalheira que dá para o Rossio, nem as sapatarias, nem os músicos de rua que entre cães e garrafas de vinho, abrem sorrisos à esmola de quem por lá passa.
Na semana passada, os meus passos apressados calcorreavam-na como sempre, como se ali já não estivessem, quando uma cena me fez estacar o passo e a respiração. Sentado quase à porta do "Celeiro" um pedinte negro de idade incerta bebia vinho tinto e cantava uma canção qualquer sobre felicidade que lhe dava um ar ainda mais miserável do que se entoasse canções de tristeza e amargura.
Emocionado pelo canto tão angustiado daquele homem de barba por fazer, outro pedinte que conheço há muitos anos dos meus constantes passeios ao Chiado, acercou-se do homem, baixou-se, disse-lhe uma ou duas palavras inaudíveis para mim e fez que se ía afastar.
Mas o homem de tez escura não parava de cantar e não parava de cantar aquela canção tão triste que falava de felicidade. Então, o outro pedinte que já ía para se afastar na mira de encontrar a generosidade de alguém que lhe desse mais umas moedas, voltou atrás, meteu a mão no bolso das calças, tirou de lá as moedas que tinha, algumas castanhas, mas também muitas amarelas, e enfiou-as no chapéu do mendigo-cantor. Só depois se afastou.
O homem de barba por fazer há tantos dias nem se mexeu. Continuou naquela toada que só ele mesmo podia escutar. E o outro já ía longe, indiferente ao seu gesto generoso já quase não se via, na pressa de recuperar o dinheiro que a sua emoção atirara para o fundo do chapéu que repousava sobre a calçada da Rua Primeiro de Dezembro, rua a que eu nunca dei a menor importância.
Este pedinte generoso não é português. Sempre que se me dirigiu, fê-lo em língua estrangeira, mas tornou-se irmão daquele português que cantava na rua, tornou-se meu irmão...
Quantas vezes lhe neguei esmola? ... Quantas vezes vi negarem-lhe esmola?... Por pressa ... Por desleixo ... Porque o dinheiro poderá ser usado em droga ou em álcool ... O que é que nós temos a ver com isso? ... As dependências que possa ou não ter são problema dele. O meu é não virar as costas a quem pede ajuda. Se quem pede me estiver a enganar, isso é um problema que ele e a sua consciência terão que tratar. E, se calhar, o dinheiro que eu não dei porque imaginei que fosse para a droga, era apenas para partilhar com o pedinte negro que canta uma canção angustiada sobre a felicidade.
Na Rua 1º de Dezembro. Uma rua com grande história para mim!

Tiago Torres da Silva, "Manhãs de Insónia", in Jornal de Letras, de 24-6/06/2006, p.40

10 Comments:

Blogger anatema said...

Una historia bonita y llena de generosidad.

Tiens mucha razón Dulce. Cada cuál haga de la limosna su razón de administrarala. Allá su conciencia. Lo importante es no dar la espalda a quiénes lo necesita.

Un beso.

3:30 da tarde  
Blogger wind said...

Grande lição de solidariedade que nos dá este texto. beijos

5:53 da tarde  
Blogger lazuli said...

é o género de texto que te vejo a escrever, Dulce.
Vá-se lá saber porquê..

1:10 da manhã  
Blogger travessias said...

Até ao fim acreditei que o texto era teu. Porque tu também sentirias assim, ou não ?

8:23 da manhã  
Blogger Ana Fundo said...

Sim, sou da mesma opinião. Parece um texto da tua autoria.
Muito bom mesmo.
Beijos
Ana Paula

8:33 da manhã  
Blogger Paula Raposo said...

Sem palavras. Comoveu-me imenso. Belo. Beijos, Dulce.

8:59 da manhã  
Blogger José said...

"...que canta uma canção angustiada sobre a felicidade."
A nossa maior riqueza está em saber dar...
Beijinhos

3:02 da tarde  
Blogger greentea said...

é verdade quantas negamos a escola com a desculpa q é para a droga ou para o pai ou para o amante e afinal a esmola foi para outro ...pedinte.
~
Ontem , á porta de um super qualquer estava uma mulher esquálida, cara de fome , olhos de lágrimas disfarçadas, sofridas. ..
Não parecia pedinte.
Quando já estava a arrumar as compras veio ao pé de mim e pediu-me se podia ir arrumar o carrinho
olhei-a nos olhos. perguntei-lhe se queria leite pão fiambre...e o seu rosto iluminou-se. Quiz saber o meu nome e a medo sussurrou um se a dona I. fizesse confiança ela preferia ir comprar as coisas. Porque bebia muita água e precisava de entrar no superm para ir à casa de banho.
Os olhos encheram-se de luz e sorriram para mim agradecidos qd lhe entreguei o dinheiro. Fiquei a ve-la empurrar o carrinho das compras e entrar a porta automática...

Era dia da Criança, ontem!!

Tem um bom dia.

10:44 da manhã  
Blogger greentea said...

queria dizer a esmola e não a escola...

10:46 da manhã  
Blogger Tiago Torres da Silva said...

olá dulce:

obrigado por publicares o meu texto.quanto mais gente o ler, melhor porque o que interssa mesmo é que o mundo seja melhor.
um abraço

tiago torres da silva

8:55 da tarde  

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